Meu despertador estava programado para as 5h20 da manhã, mas eu já estava desperto às 4h30. “Culpo” levemente a ansiedade por esse adiantamento no horário, mas sem nenhum problema…
Como por uma mágica do destino, a chuva havia parado — e esse foi o primeiro ponto que me deixou feliz no dia.
Afinal, começar uma caminhada de 400 km na chuva seria um pouco complicado.
Com tudo pronto e revisado pela milésima vez, saí da pousada e oficialmente começava o meu primeiro Caminho de Santiago de Compostela em 1º de maio de 2024.
É engraçado como agora, lembrando dos primeiros passos, eu percebo o quão perdido estava. E quando digo perdido, é em todos os sentidos. Como peregrino (porque agora eu era oficialmente um deles), eu não tinha nenhuma experiência com tanta bagagem para caminhar e não sabia onde levar os equipamentos. Além disso, não sabia por onde deveria sair de Coimbra para chegar à rota e ainda estava perdido ao tentar usar o aplicativo. Por outro lado, parecia perdido como pessoa também. Apesar do propósito e das motivações definidas, eu meio que vagava entre pensamentos e claramente não esperava (ou estava preparado) para a avalanche que viria.
O lado bom de tudo isso é que, depois dos primeiros quilômetros, tudo foi se encaixando. Fui encontrando a melhor maneira de levar minha mochila, e o alívio foi grande ao avistar a primeira (de infinitas) seta amarela. Eu estava no caminho certo, ao menos.
Não preciso nem dizer que a ansiedade ditou o ritmo dos primeiros dias — seja pela vontade de descobrir e passar pelas etapas, seja para manter o corpo e a mente atentos às novas descobertas, paisagens e momentos.
Como peregrino de primeira viagem, tive muito receio dos albergues. Muitos deles não aceitam reserva antecipada (o que é normal, e entendi o motivo ali mesmo), e outros têm apenas o nome anotado em um caderno, sem nenhuma “prova” de que manteriam a reserva (e, novamente, compreendemos a razão). Digo facilmente que os albergues foram minha primeira surpresa positiva: preço completamente acessível, boa estrutura, limpos e com um espírito supertranquilo e acolhedor. Claro que existem melhores e piores, porque somos naturalmente inclinados a ranquear tudo em nossas vidas, mas não me arrependi de nenhum deles — e ficaria novamente de olhos fechados.
Um fato curioso é que, nos primeiros quatro dias, caminhei completamente sozinho — do início ao fim das etapas. Cruzava com outros peregrinos, mas que iam na direção contrária, e nenhum deles seguia para Santiago. Mesmo nos albergues, as poucas pessoas com quem conversei até chegar a Grijó estavam indo para Fátima — e não para Santiago. O Caminho de Fátima (ou Peregrinação a Fátima) é a rota peregrina mais famosa de Portugal, e como o dia de Nossa Senhora de Fátima é 12 de maio, muitos fiéis fazem o caminho nesse mês em homenagem à santa. Conforme os dias passavam, mais e mais pessoas cruzavam por mim na direção contrária. Quando digo “mais e mais”, é algo de centenas de pessoas caminhando pelas estradas e ruas — algo realmente impressionante.
Outro ponto curioso é que, nessa parte de Portugal (entre Coimbra e Porto), os Caminhos de Fátima e de Santiago de Compostela são exatamente iguais — mas em direções opostas. Como o Caminho de Fátima é a rota mais famosa, a sinalização dele nessa região é extremamente abundante e bem conservada. Isso me fazia olhar para trás, buscando uma seta azul no sentido contrário, apenas para confirmar que eu ainda estava na direção certa.
Os primeiros dias passaram com o choque da solidão, da natureza, da tranquilidade e das diferenças gritantes entre cidades e pequenas vilas que mal sabemos que existem. Era curioso também ver e sentir a “normalidade” das pessoas conosco. Literalmente, eu era um estranho na rotina daquela gente toda, mas por alguma razão, eles não demonstravam surpresa. Nesses primeiros dias, poucos me cumprimentaram com um “Bom Caminho” — e eu não consigo me lembrar exatamente quando ouvi o primeiro. Talvez de algum peregrino indo para Fátima, ou de algum senhor me vendo caminhar com a mochila enquanto seguia sua vida normalmente. Mas, voltando à ideia da normalidade que eles enxergam nisso, parecemos invisíveis até certo ponto — o que faz sentido do ponto de vista de não serem invasivos ou críticos, mas que, culturalmente, ainda me causa um certo incômodo pela frieza.
Como sempre, nos adaptamos aos costumes, entendemos as circunstâncias e seguimos adiante.
Uma parte boa dessa solidão, e do fato de que eu começava a caminhar muito cedo (alguns dias antes das 5h da manhã), era contemplar o nascer do sol já caminhando por bosques, plantações ou estradas desertas. No momento em que os primeiros raios de sol (ou a claridade, dependendo se chovia ou não) surgem no horizonte, há uma mudança gritante: do silêncio ao despertar dos pássaros e outros animais. Em fração de segundos, você é inundado por inúmeros sons e formas de vida, e entende que faz parte de algo maior e indescritível. Se antes parecia que você estava só nessa jornada, de repente, se sente abraçado e acompanhado por seres que nem fazia ideia de estarem ao seu redor…
E para finalizar este capítulo, nada como a primeira grande lembrança — e, por que não, “celebração”? Ao terminar minha primeira etapa em Mealhada, estava fazendo o check-in no albergue quando o rapaz pegou minha credencial para carimbar. Ao ver que não havia nenhum carimbo, me perguntou:
— Primeiro dia?
— Sim, iniciei em Coimbra…
— Bem-vindo ao Caminho! Não sei por quê, mas parece especial para si.
Ele sorriu e me entregou a credencial. Naquele momento, comecei a perceber que o Caminho já estava abrindo suas portas e preparando o terreno para as avalanches que viriam…
Conte-me algo aqui...