“Se soubesse das outras letras, teria criado mil outras histórias, finais e desilusões, mas eu parei naquela letra e nenhuma queimou meu corpo como aquele rapaz…” continuava a velha…

“E depois? Como foi que você descobriu?”

“Não descobri, apenas entendi… Você entende o futuro quando ele se desenha na sua frente, filho. Não existe essa ladainha de ‘e de repente descobri a verdade’, bobeira… Todos sabemos a verdade, mas alguns momentos estamos cegos com a nossa ilusão e não conseguimos engolir nada que for diferente daquilo.”

“Como saber que é a última vez entre eu e a Mariana, mesmo existindo um convite para um futuro…”

“Sim, a história acabou ali, filho… E não foi ela quem me contou, mas sim você… Vocês não são iguais, mas ficam lindos juntos. Mas é uma beleza temporária, entende? Creio que as conversas não se conectam, vocês ficam presos a um ou dois momentos do passado. O fio é muito fino e se rompe fácil…”

“Sim… Exatamente isso. Temos uma vida de férias adolescentes, um punhado de músicas que nem escutamos mais e só… Crescemos e a ironia foi que nem os empregos são da mesma área…”

“Mas filho, existem outras Marianas ou Natalias, Rafaelas, Biancas, Alices… Certo?”

“Sim, mas…”

“Não como ela, eu sei… Mas o futuro não se conhece. Se entende, mas não se conhece. E se não existir, vai existir uma sexta-feira qualquer daqui há uns anos. Você vai estar em algum lugar e verá um jovem igual você e daí você poderá pagar umas cervejas para ele…”

“HAHAHAHA… Aliás,quanto eu devo pelas cervejas? Tomamos uma caixinha aqui…”

“Nada filho… Nada… Você é muito simpático. São duas da manhã e eu nem estou com sono, mas realizada. A conversa foi muito agradável…”

“Totalmente… Desculpe te fazer falar um monte…”

“Amanhã será você, filho… Não se esqueça disso.”

“Não me esquecerei…”

Ela se levantou, nos abraçamos e a ajudei com a cadeira e peguei uma sacola plástica para colocar as latas. Quando virei a esquina, me lembrei que não sabia o nome da senhora. Quis retornar e tocar a campainha para perguntar, mas lembrei que poderia reencontrá-la ali na sexta-feira seguinte que estivesse na cidade.

A ironia do destino quis que retornasse apenas três meses depois. Chovia torrencialmente e quando passei de carro na porta da casa, estava tudo apagado. Tentei retornar no dia seguinte pela manhã, mas também a casa estava toda fechada.

Quase cinco meses depois retornei para uma sexta-feira de calor. Depois dos bares com os amigos, refiz meu caminho pela casa. Era pouco depois de onze da noite. Passei na casa e me assustei com a placa de “Vende-se” na porta. Havia um telefone particular que liguei na manhã seguinte. Uma mulher atendeu minha ligação e eu apenas perguntei o que havia acontecido com a antiga proprietária. Só que eu não estava esperando a resposta…

A senhora veio a falecer um mês depois. Perguntei a data por pura curiosidade, mas foi uma quarta-feira de janeiro. Expliquei que não sabia o nome dela, mas que tinha conversado uma noite com ela na sua calçada. A mulher pareceu surpresa e me pediu para esperar na linha. Um minuto depois ela retornou e falou:

“Ela deixou um bilhete para você… Achamos na mesinha da sala em um envelope marcado ‘Para o jovem rapaz que vier me procurar na sexta-feira’, creio que seja você…”

Peguei o endereço da mulher e corri o mais rápido que pude. Ela me entregou o bilhete e quando entrei no carro, não consegui segurar a emoção. Com uma letra trêmula, mas muito coesa, o bilhete dizia:

“Filho, espero que tenha encontrado seu futuro e que ele seja tão próspero quanto seu sorriso. Agradeço pela nossa conversa. Sei que cumpri minha tarefa e infelizmente não nos veremos mais. Guarde as lições e sinta-se abraçado por mim. Beba umas latinhas por mim na próxima sexta-feira. Um beijo enorme… Ah, a proposito meu nome é Sandra. Como também não sei o seu, te apelidei de Matheus, não sei se acertei, mas você tem cara de Matheus…”

Ela sabia tanto que acertou até meu nome…