Mesmo quando o início parece cena de filme, a trama ganha caminhos tortuosos e cedo ou tarde, acabamos voltando às nossas origens, orgulhos e medos…

O ambiente muda a pessoa de diversas maneiras. Tem a parte boa, onde abre o horizonte para novas situações, expande o mundo de antes, colocando novas rotinas e diferente maneiras de enxergar as etapas da nossa vida. Porém, se os planos traçados anteriormente começam a cair e escapar do nosso controle, esse ambiente se tornará nocivo e retornaremos ao nosso instinto de sobrevivência clássico…

Foi isso que aconteceu com ela. Seus planos minguaram algumas semanas depois da sua chegada. Mesmo tendo agora um “relacionamento” – que ela não conseguia classificar, mas que era um relacionamento, não lhe ajudava, porque via que o seu “companheiro” sim tinha sua vida um pouco mais encaminhada, enquanto ela patinava ainda nos primeiros passos. Essa diferença crucial, fez com que ela começasse, pouco a pouco, a mudar seu temperamento e buscar outros complementos…

Foi questão de alguns dias passarem, até ela encontrar outro cara encantador. A conversa parecia fluir de uma maneira mais fácil, com um ritmo mais intenso em certos momentos que pareciam precisar de uma força maior. O beijo era quente, a pegada forte e ela se entregava de uma maneira mais livre…

Porém, no seu íntimo e quando tentava dormir sem sucesso, sabia que havia criado uma personagem diferente. Havia criado uma nova pessoa, bem-sucedida, para afogar seus fracassos reais. Pouco a pouco se perdia nas histórias e nos pontos que havia dito no encontro anterior e, o que era para ser tranquilo e novo, se passou a ser apenas por sexo e pouca satisfação. Sem querer, havia saído de um “relacionamento” – que ela ainda lutava para compreender, para ser praticamente a escrava sexual de um cara novo, que ela mal conhecia e que a fazia mal…

Ela chorou pela centésima vez, desde que havia mudado para aquela cidade. Sem maior aviso, desistiu de tentar dormir, arrumou as malas, chamou um taxi e se foi para a estação de ônibus. No caminho escreveu dois e-mails: O primeiro para a imobiliária, informando da desistência do contrato e onde poderiam encontrar as chaves do apartamento. O segundo para o seu “relacionamento”, se desculpando das loucuras e dizendo que sentia muito, mas que era hora de retornar para sua cidade. Desligou o celular, tirou o chip do aparelho e já trocou para o antigo que ninguém possuía.

Apagou suas redes sociais antes do amanhecer, conectada em um wi-fi da única lanchonete aberta da rodoviária. Entrou no ônibus para a longa viagem de volta e, finalmente, depois de semanas de sofrimento, conseguiu dormir…