Mesmo que fosse tudo uma mentira. Eu a queria de novo. Mais até do que a própria razão…
A estrada estava mais cheia que o esperado e São Paulo sempre tem um trânsito carregado. É uma cidade que não dorme nunca. Os carros e seus habitantes também não… A viagem durou mais que a 1h30 que tinha prometido e ela mandou mensagem uns 20 minutos depois do atraso “Desistiu?!” e eu respondi com uma foto dos carros parados e “Serra Negra não tem trânsito né linda?”. Ela riu do comentário…
“Estou pronta! Vou só escolher o perfume e pronto…”
“Mantém o mesmo de ontem? Não por nada, mas uma hora ele parecia o mesmo daquela primeira noite”
“E foi bom para você, sr Monteiro?”
“Tanto a primeira quanto a segunda, srta o que mesmo?”
“Uma coisa de cada vez.”
“O que vamos fazer? Você quer ir jantar ou algo?”
“Para o carro aqui Má, não vou deixar você dirigir mais… Eu estou com fome, conheço um lugar ótimo e é perto daqui.”
“Ok… O Waze diz 15 minutos…”
“Vou avisar o Maurício, apartamento 102 ok?”
“Beleza…”
E 15 minutos depois eu me via estacionando o carro no prédio dela e apertando o 10 do elevador. Só naquele momento percebi a dimensão da coisa toda: Há 2 horas eu estava em casa, estirado no sofá, namorando uma mensagem de texto. Agora estava subindo um elevador de um prédio desconhecido para ver uma mulher que havia beijado há 20 anos.
“Você veio!” ela abriu a porta e estava totalmente linda. Fiquei até meio sem jeito de ver que não havia me arrumado tanto quanto e talvez o local que ela fosse jantar seria um problema com a minha roupa.
“Eu não minto, esqueceu?”
“Mais uma das qualidades… Vou ficar mal-acostumada.”
E nos beijamos, pela quarta vez na vida, a segunda depois de menos de 24 horas.
E eu contava os beijos, porque depois daquele único em 1995, nunca mais nos falamos. Eu parei de ir para Serra Negra tanto e acabei a vendo poucas vezes durante férias ou carnaval, mas os amigos acabaram sumindo e, como ela era 2 anos mais velha, as companhias naquela adolescência pediam mais idade do que um “pentelho qualquer” – Durante certa época da vida, 2 anos é uma vida inteira. Depois de “velhos” a situação muda e tudo se iguala novamente. E ali estávamos os dois novamente entrelaçados, pela primeira vez em um sofá, pela primeira vez fora daquela cidade pequena.
Ficamos ali, conversando e jogando conversa fora por quase uma hora. Ela abriu um vinho e terminamos a garrafa antes mesmo de contar os 10 beijos seguintes. Desistimos do jantar e migramos para o quarto dela.
Transamos com uma urgência assustadora. Era um desejo maior, uma necessidade de carinho e uma vontade que extrapolava qualquer aceitação. Desistimos de contarmos os momentos e com os olhos abertos apenas aceitávamos e sorríamos o prazer proporcionado, desvendando o corpo e os jeitos de cada um, criando um novo encaixe para nossos corpos. Não foi um sexo qualquer, foi um momento único e difícil de acontecer.
“Sério, obrigada Má”
“Pelo o que?”
“Por me fazer descobrir que posso gozar ainda… Há anos eu não chegava nesse ponto.”
“De nada, mas não faço as coisas sozinho… Quando o sexo é bom, é fruto dos dois, não?”
“Posso desistir da vida e ficarmos apenas aqui?”
“Eu já trouxe minha mala de roupa, eu estou mudando para cá agora. Não falamos de você me sustentar? Eu cuido da casa… Fica tranquila!”
“Acho que pela amostra de hoje, eu te sustento numa boa… Só não pode perder esse pique, hein?”
“Eu arrumo um futebolzinho fácil por aqui! Eu garanto”
“Meu deus… Vem aqui!”
Ela pediu que eu fosse embora só no dia seguinte e eu aceitei. Talvez pelo vinho, mas também porque tinha medo de que tudo fosse terminar depois dali. Ligamos um filme qualquer e ela começou a dormir 15 minutos depois e eu adormeci ainda pensando naquela loucura de domingo…
Acordei às 4h30 e tomei um banho rápido para despertar melhor. Ela ainda dormia quando terminei o banho e me arrumei para ir embora. Lavei as taças da noite e escrevi um bilhete para ela…
“Ainda não descobri seu sobrenome, mas quero que saiba que há anos não sentia a alegria que estou sentindo agora. Espero que acorde bem e seu dia seja maravilhoso. Nos falamos depois, avise quando acordar. Um beijo Bru…”
E peguei a estrada na escuridão de volta para casa. O shuffle me guiou com músicas tristes que não combinavam com aquele momento e com o que sentia em meu peito. Ou talvez fosse um presságio do futuro que estava por vir…
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