Eles se beijaram no silêncio do cartão postal da cidade. Não haviam testemunhas naquela noite, mas ali foi o primeiro beijo que deu início ao confuso relacionamento criado…

Eles não se conheciam há muito tempo. Era tudo uma grande novidade para ambos. Uma nova vida criada, cada um carregando seus motivos e bagagem diferente. Se esbarraram por acaso no meio de uma multidão, se desculparam juntos e riram da coincidência forçada. Ela um pouco mais velha que ele na idade, mas ele carregava mais marcas de lutas que faziam essa diferença desaparecer. Antes do acaso, eles tentavam se acostumar com a nova vida, mas experimentando um acre sabor de desilusão…

Aquela cidade era nociva na sua intimidade. Tinha um ar falso de acolhimento, mas logo mostrava uma indiferença gritante que causava uma falta de aceitação automática para seus estilos. Eles eram diferentes da maioria, assim as amizades eram difíceis em serem conquistadas. O idioma que poderia ajudar, atrapalhava e os classificava diferente do resto. Logo, criaram uma espécie de escudo social para transparecer uma normalidade, mas que por dentro sofria e acumulavam angústias e arrependimentos…

Naquela tarde do esbarrão, algo pareceu fraturar esse escudo e pela primeira vez tinham uma experiência nova e saborosa. Riram das diferenças, riram do entorno. Fizeram piadas das situações e dos que haviam conhecido até então. Caçoaram das oportunidades perdidas e, pela primeira vez em muitos meses, sentiram compreensão e sentiram companhia – só quem já experimentou sabe o quão gratificante é saber que não se está sozinho nas aflições…

Ali as horas passaram rápido demais e foram expulsos do restaurante que estavam. Moravam em direções opostas e riram da infelicidade que aquela distância causaria em suas rotinas. “Poderia ser mais perto, para podermos nos ver mais rápido…” disse ela já deixando claro sua vontade. “Eu venho quantas vezes você me chamar…” concluiu ele, já a abraçando como uma cena de despedida…

E assim se beijaram pela primeira vez…