Foi bom ter te visto, mesmo que por uma foto estática onde você olhava para outra direção, mas que me fez relembrar nosso último encontro…

Eu suspirei por um momento depois que você foi embora. Era perfeito demais, depois de tanto tempo, nós adultos vivendo essa avalanche sentimental novamente. Você foi a primeira menina da minha vida. Posso dizer que nunca encontrei alguém como você, e talvez por isso tenha sido tão solitário desde então. Ao sair da sua rua e voltar para o caminho de casa, uma senhora estava sentada na porta de sua casa. Era verão e o calor fazia as pessoas espiarem a rua para passar o tempo…

“Bonito casal vocês…”

“Ela é perfeita. Eu que tive sorte dela me escolher…”

Ela sorriu por uns 5 segundos e me olhava como desvendando toda a história que passava na minha cabeça.

“Amor antigo?” e apontou para uma cadeira dobrada ao seu lado, convidando para sentar.

“Antigo me faz parecer velho, mesmo careca ainda sou jovem…”

“Quer falar sobre parecer velho comigo, meu filho?” e rimos… Mesmo essa sendo a introdução necessária.

Revivi todos os tempos que vivemos na época de adolescente, onde esperava o carro azul aparecer – apontando o verão ou aquecendo o inverno. Sempre fomos de curto tempo. Um casinho de férias que era esquecido durante o ano, mas que todo período de férias voltava para alegrar o tempo “perdido”. A senhora ouvia atentamente toda história, em algumas partes abria um sorriso castigado pelo tempo, mas que demonstrava uma alegria pura. Outras, ela suspirava como se compreendendo o peso daquilo no decorrer da história. Ela não me interrompeu em nenhum momento e quando terminei, ela apenas falou:

“Pode chorar, filho…”

Eu não queria e nem tinha pensado em chorar, mas chorei. Não entendi a razão, mas chorei até me faltar o ar. Enquanto isso acontecia, a senhora me explicava a razão…

“Este é um choro bom não filho? Você agora consegue compreender o amor… O amor é como a vida, sabe? Ele não é perfeito, simplesmente porque ele não pode ser perfeito… Senão você não aprende. Não se acostuma com as reviravoltas, as dificuldades, a insegurança típica, a falta e muito menos não consegue compreender as angústias que ele tem.”

Foram quase 10 minutos ali. Ela não me abraçou ou me confortou. Ela continuou sentada, olhando para a rua, com um meio sorriso no rosto que mostrava toda sua tranquilidade. Quando terminei, o silêncio se fez presente.

“Você sabe que não vai mais vê-la né filho?”

E ali eu compreendi. Não éramos feitos para a eternidade. Éramos um tempo de lazer. Uma alegria curta e momentânea. Uma espécie de fuga da realidade – dos dois lados. Você pelas férias no litoral e eu pela experiência. Não éramos perfeitos como eu pensava anteriormente. Éramos um bonito casal, mas iguais a tantos outros que existem por aí e que não ficam juntos.

“Guarde as lembranças. Guarde até esse endereço. Olhe para esse prédio e lembre-se que você beijou a menina bem ali. Guarde a sensação de abraça-la e, principalmente, guarde todas as explosões que você teve quando a via, depois de meses. É o que vai te manter vivo, mas entenda que sem ela.”

“É isso que você fez?”

Ela tirou uma foto do seu bolso. Era uma foto amassada, gasta pelo tempo, mas que tinha apenas um menino na foto.

“Sim filho, eu não tenho uma foto com ele… Eu estava sentada com uma amiga na frente de casa, era uma sexta-feira de dezembro, pouco antes do natal. Ele apareceu com um amigo. Começamos a conversar e quando eu vi, já eram 2 meses de uma loucura de verão. Ele se foi pouco antes de fevereiro, voltou para a vida dele no interior e eu fiquei aqui… Pouco depois ele me mandou essa foto pelo correio e eu escrevi de volta, falando que todas as sextas-feiras eu me sentaria na frente de casa e deixaria uma cadeira preparada para ele. O tempo passou e eu percebi que não queria ele de volta, apenas que a gente lembrasse do tempo que passou, sabe? A gente aprende que o amor não é perfeito. Ele é cruel mesmo…Quando vi vocês, eu me vi ali. Talvez eu tenha um pouco dela, um pouco de você. Mas compreendi que o ciclo se fechou…”

Ela continuou a falar, mas eu revia todo o início da cena. A solidão postada no rosto da senhora, a cadeira dobrada que agora eu sentava e eu lembrei que ainda era sexta-feira de dezembro. O amor realmente não é perfeito…