“Talvez eu não precisasse dele, mas precisava ver que existem pessoas ainda vivendo a mesma mágica que eu vivi e que essa espécie de brincadeira é sempre válida e gostosa…”
A senhora continuava a falar, mas perdi uma parte do seu desabafo.
“Desculpe… Hoje é sexta-feira… De dezembro”
“Ah sim filho, ele não vai vir. Fique tranquilo…”
“Mas você o reencontrou alguma vez?”
“Duas vezes mais depois daquela primeira… Foram os beijos mais lindos que tive, mas com o vazio de que só se aproveita o momento e um minuto depois, some… Como você está sentindo agora. Não?”
“Sim…”
“Desculpe, filho… Eu sou a culpada por isso.”
Foram mais alguns minutos em silêncio. Quis levantar, mas não conseguia. Tudo paralisou no momento e talvez ela tenha percebido que foi forte demais aquela breve conversa. Ela apontou para o seu portão e um isopor ao lado dele.
“Acho que ambos precisamos de uma cerveja… Se importa filho?”
“Você bebe todas as sextas?”
“Bebo todos os dias! Sou velha, mas não morta”
Abrimos uma lata cada, brindamos um amor completamente cruel e bebemos em silêncio. No final da minha primeira lata, perguntei:
“E você foi solteira para sempre?”
Ela acenou para pegar mais duas latas… Talvez ela precisasse mais do que eu. Ela abriu a lata, começou a tomar e não respondeu minha pergunta. Era como se ela quisesse fugir da resposta, elaborando uma história que justificasse tal escolha. Ou era apenas minha mente tentando me fazer o culpado de tamanha intromissão… O problema é que mesmo passando da meia-noite, quase duas horas de conversa depois, eu me sentia parte daquela vida e próximo o suficiente para tamanho atrevimento. Uns 10 minutos se passaram e ela então falou:
“Eu nunca quis casar. Apenas com o Bernardo. Era esse o nome dele… Não sei filho. Eu perdi tempo. Eu perdia minhas sextas imaginando que ele chegasse e fosse desenhar o mundo comigo. Eu comprava roupas novas, lia mil livros, sabia das notícias, apenas para não ficarmos em silêncio e sem assunto. A vida dele deveria ser agitada e eu, apenas uma menina do litoral. Aqui é grande né filho? Mas não é uma cidade grande… Um dia adolescente, fui até a cidade dele com uma amiga. Pegamos um hotel, fizemos um roteiro qualquer e partimos. Lógico que não o encontrei. Era absurdo demais… Depois o tempo passou. Comecei a faculdade, trabalho, mudei de cidade, fui descobrir um pouco mais do mundo real – fora dessa calçada e das sextas-feiras perdidas… Fui viver o que a vida me reservou. Acontece que aquele fogo. Aquela coisa louca que tive com ele nunca mais se repetiu. E eu queria algo daquilo de novo. Se não grande o quanto, parecido. Só que eu não entendia…”
Eu sabia a continuação.
“Você não entendia que aquilo era só você e ele. Seu primeiro toque de amor. Seu primeiro desejo incontrolável. Ninguém seria o Bernardo. Como ninguém será a Mariana. Ela teve o jeito dela de tocar minha vida. É impossível achar alguém igual, resta achar alguém que te dê algo bonito e que te faça feliz ali. Para vocês dois e não como o Bernardo…”
“Minha cerveja traz umas boas visões né filho?”
E rimos como se fosse uma mãe e filho. Mesmo com o silêncio seguinte, eu já sabia do final da história… O tempo passou e ela acabou por ficar sozinha. Nem certa, nem errada. Ela apenas queria alguém que fizesse seu corpo borbulhar pelo simples toque e presença. Alguém que a fizesse perder o ar, apenas com um bom dia. Alguém que valesse a pena esperar e viver. Alguém que aparecesse de surpresa e virasse o mundo dela de cabeça para baixo. Eu tentei concluir a noite e a conversa…
“Isso, todos nós queremos né… Uma Mariana para mim e um Bernardo para você… Mas a gente acaba focando apenas em um nome, quando a cartilha mostra várias outras saídas…”
“E você não consegue mudar a letra…”
Ela abriu mais uma cerveja…
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