Era engraçado que há tempos eu tinha um encontro, mas não um telefone para saber se estava tudo certo…

Como não queria apressar a situação, saí um pouco antes do horário e fui espiar na rua para ver se via algum movimento na casa dela. Sabia o apartamento por pura dedução lógica. Segundo andar, lado direito. Quando olhei para cima, vi as luzes acesas e uma música conhecida saindo pela janela. Sorri sozinho, pois era uma das músicas que mais ouvia ultimamente…

Voltei para casa e aguardei o relógio marcar 19h. Daí fui e toquei no seu apartamento. Ela abriu a porta sem perguntar e eu subi as escadas. A música ainda estava lá, mas era outra banda que tocava.

“Pensei que não vinha mais, deixou passar dois minutos depois do horário…” dizia ela sorrindo e saudando para que eu entrasse no apartamento.

Ele lembrava bastante o meu, mas com algumas diferenças sutis. Talvez os prédios tivessem a mesma idade – como nós dois.

“O Uber errou o caminho…”

“Mas não o meu apartamento, né Sherlock?”

“Não é difícil de deduzir vai…”

“Anda me vigiando?”

“Não diria isso… Trouxe o primo tinto do teu vinho, mais um outro porque você se chamou de louca e eu preparei isso para a nossa entrada. E ah, a sobremesa tá aqui, se tiver espaço no freezer é melhor. Quase derreteu no Uber…”

“Não precisava louco… Fiz tudo aqui!”

“Guarda para outro dia então… Acho que você vai curtir…”

“Faz a gentileza do vinho?”

“Sempre…”

Não houve um abraço de oi, apenas as piadas para quebrar o gelo da situação, mas depois de abrir o vinho o silêncio quase venceu…

“Então Matheus, me conte de você…” disse ela quando o shuffle voltou para uma das bandas que me acompanhava na vida…

“A explicação combinaria mais com Gaslight Anthem, Horrible Crowes vai deixar o clima pesado…”

“NOSSA! Você conhece? Vou mudar…”

“Jamais. Deixa… Isso vai criar um clima bom…”

E conversamos as futilidades de sempre. Tempo fora, trabalho, gostos, música. Rimos o suficiente para não saber o momento exato que a garrafa de vinho estava quase no fim. E como um sincronismo, foi o momento que o cheiro de camarão já pedia licença no apartamento.

“Fiz camarão gratinado. E agora que me pensei, se você for alérgico…”

“Fica tranquila. Eu não sou e faço isso direto também.”

“Vai me avaliar? Não sou tão boa na cozinha…”

“Apenas pensei em jantar acompanhado hoje. Não estamos em uma competição, estamos?”

“UFA… Vem sentar aqui.”

E migramos do sofá para a pequena mesa de jantar.

O jantar transcorreu tentando terminar os assuntos anteriores. Ela era uma cozinheira bem interessante, pois o tempero era algo complexo e delicioso.

Fomos para a terceira garrafa de vinho na sobremesa e voltamos ao sofá. Ela se sentou mais próxima de mim e brincamos com o sorvete que quase caiu no sofá. Ela me ajudou a ajeitar a “bagunça” causada e nos beijamos assim que ela sorriu próxima do meu rosto…