A notificação do celular fez a mesa vibrar e os olhos dele correram a mensagem abrindo um sorriso verdadeiro…
A mensagem era do “Rodrigo Fut” e a conversa se mostrava bem longa e diversificada. Ironicamente ele não conhecia nenhum Rodrigo e quase não estava jogando com o grupo de sempre. Era um codinome criado para manter em segredo as mensagens que trocava há algumas semanas com a menina que havia conhecido na despedida de solteiro do seu primo. Não, ele ainda não considerava mais uma traição – não ainda. E sim, “mais uma”, porque já havia acontecido dois momentos parecidos nos últimos nove anos de relacionamento sério – que ele admitia ser um casamento, mas a sua noiva (ao menos esse título era oficial) não admitia ainda.
A última traição havia acontecido 2 anos e meio antes. Havia sido rápida, mas perigosa o suficiente para ele sair e prometer para si mesmo que seria a última. Mas, os comportamentos estranhos e distantes da sua noiva o fizeram desconfiar muito da atual situação. E aí uma coisa levou a outra…
O garçom veio pegar o pedido e eles repetiram os mesmos pratos da última vez que estiveram ali há duas semanas. E provavelmente foi o mesmo das duas visitas do mês anterior. Sim, o relacionamento estava no patamar de repetir as mesmas coisas, nos mesmos lugares e do mesmo jeito. Eles até conversavam em mudar, mas ambos tinham medo de mudar e descobrir um mundo diferente que os arrastassem para longe do que haviam construído juntos. Por mais bizarro e engraçado que isso parecesse…
Enquanto esperavam a comida, eles tomavam suas cervejas e comentavam coisas aleatórias e sem nenhum diálogo durando mais do que 1 minuto. Ele olhava aleatoriamente as outras mesas do restaurante, reconhecendo uma meia dúzia ou um pouco mais de pessoas que sempre estavam por ali, pensando se elas também os reconheceriam e estavam na mesma situação de vida. Ela, por sua vez, estava ao celular alheia a qualquer ponto acontecendo à sua volta. Intercalava Instagram, TikTok e WhatsApp com uma velocidade que era complicado entender o que era o mais interessante naquele momento.
O silêncio entre os dois era quebrado de tempos em tempos, apenas para acreditarem que eram um casal normal que conversava coisas aleatórias, mas que em poucos segundos retornavam aos seus mundos particulares.
Em um daqueles momentos de “término de assunto”, se é que se podia chamar assim, ele começou a pensar quando o comportamento da sua noiva havia mudado ou que ele havia notado as mudanças que hoje transbordavam à sua frente. O que mais brilhava aos seus olhos era o verde que ela usava. Ele lembrava que no início do namoro, comprou uma blusa verde para ela e sorrindo ela falou que detestava a cor “É do Palmeiras isso amor? Não dá né?” e riram, criando uma piada interna durante os demais anos, porque ela trocou a peça dias depois. Porém, hoje o guarda-roupa dela havia ganhado um novo tom. Inclusive, lembrou do diálogo que aconteceu três semanas antes para saber da nova mudança…
“Agora a cor do Palmeiras está liberada nessa casa?”
“Sempre esteve né, Mô? Mas agora eu acho legal. É bom dar uma mudada…”
“Já sei então o que comprar em setembro…”
“Boa”
Ela também havia criado um perfil no TikTok. Apesar de ser a rede social do momento, ela era uma crítica ferrenha do teor do aplicativo e isso tudo havia desaparecido no último mês, pois passava horas visualizando inúmeros perfis e conteúdo que ele mesmo não conseguia entender.
Os dias com suas amigas estavam mais largos. Apesar de saber que elas estavam juntas, por conta das redes sociais, os programas agora se estendiam até a madrugada, quando antes eram mais tranquilos e se estendiam pouco depois do jantar. Inclusive para não atrapalhar a jornada de seu trabalho.
Enquanto tomava sua cerveja, ele tentava ler um pouco da mente daquela que convivia há nove anos e se frustrou em não conseguir desvendar nada além do que o total desinteresse em qualquer outra coisa que não fosse seu celular.
Ele se sentiu triste pelas duas traições anteriores naquele momento. Mesmo sendo um erro enorme, elas tiveram um importante papel no relacionamento deles, pois quando terminaram a intensidade que ele “retomou” com sua noiva foi absurda e o fez se sentir muito bem apenas ao lado dela. Talvez, no fundo, era isso que ele buscava – uma forma de trazer aquela intensidade toda que havia se perdido em algum motivo nos últimos meses. Mas, por inúmeros motivos, não conseguia conversar e contar toda a verdade para ela…
A comida chegou. A esposa sorriu sem nenhuma vontade ou surpresa pelos pratos, pousou o celular na mesa e fez um brinde básico com o noivo – era sua tradição brindar quando fosse começar a comer. Ele olhou diretamente para ela e sorriu tentando enxergar uma faísca que duvidava muito existir. Ela desviou o olhar e começaram a comer.
“Rodrigo Fut” enviou outra mensagem. Era uma foto. Ele pegou o celular e meio sem jeito guardou o celular no bolso. Se ela tivesse reparado no seu noivo, teria visto uma leve dilatação da pupila por algo surpreendente que ele havia visto no celular. Ele esqueceu dos pensamentos anteriores e das tentativas em entender a situação, abriu um sorriso interno e sabia que a terceira traição não iria demorar para acontecer…
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