E comecei uma nova revolução — quebrando os antigos pontos empoeirados e trazendo aquela energia vinda sabe-se lá de onde, para agora triunfar…

E, de repente, acordei com uma vontade estúpida de ser outra pessoa. Segui os conselhos daquele coach que dizia que eu deveria tomar as rédeas da minha vida e construir meu próprio sucesso. Então, segui sorrindo e gritando, batendo no peito com força e trazendo todo um “ódio do bem” para me motivar e seguir adiante. Cortei o cabelo, mudei os móveis de lugar, doei roupas e joguei fora os velhos exemplares motivacionais. Limpei conversas, apaguei o histórico de todo o meu passado e achei que isso fosse suficiente para apagar os traços do que fui até agora…

Dei bom dia para o espelho como quem encontra um estranho e finge uma intimidade genuína. Prometi a mim mesmo que, dessa vez, seria diferente. Usei todo o meu poder de oratória para criar “o” meu desabafo sincero. Quase me emocionei genuinamente, mas peguei aquele feeling e me debrucei sobre ele, esperando que as palavras ditas com a entonação certa se tornassem meu combustível e meu ingresso para o sucesso. E repeti. Repeti para que a repetição me levasse mais longe — mesmo sem me mover. Agora tudo seria diferente. Agora sim — agora sim!

Mas, de um ângulo mais real da vida, a perspectiva era outra. O início foi intenso, com uma energia e uma urgência tão poderosas que quase queimavam as pupilas dos desavisados. Mas tudo foi decaindo. Até que, depois daquele almoço, a energia cessou de vez. A louça se acumulava na pia, as roupas estavam jogadas pela casa, o café esfriava e a dieta havia sido trocada por um chocolate de prazer. O renascimento daquele plano infalível parecia mais uma troca de pele sem cura. Uma reinvenção com as mesmas sobras e a sensação de estar preso em um looping emocional — onde cada grande virada de página termina numa folha em branco, suja e remelenta — quase asquerosa.

Mais do mesmo ditado: fogo de palha.

Conhecemos essa coreografia de olhos fechados: o impulso, o excesso, a desistência. Começamos algo com a força de quem está fugindo, mas é só o tédio vestido de esperança. Trocamos a disposição dos móveis da casa inteira, mas ignoramos o mesmo teto embolorado sob o qual criamos nossas manias. Jogamos fora as velhas roupas, mas ainda guardamos intensamente as dores que elas carregavam.

E, no fim… tudo vai e tudo volta. Porque não compreendemos que a mudança leva tempo — e nada é concreto e duradouro quando é feito de uma hora para outra.

Agora o tédio se mescla com a ironia daquela voz estridente e chata, que ganha espaço nesse mundo que parece pequeno demais. A mesma voz que dizia “agora vai” cochicha “já voltou” no meu ouvido — e gargalha aos plenos pulmões, rindo dessa desgraça de resultado tão diferente do que nos foi prometido.