É um dia silencioso. Um desses que parecem pesar mais que os outros. É um dia em que eu não devia escrever, mas é a única maneira de expor minhas aflições…
Hoje não é o dia em que a saudade fala mais alto. Hoje é o dia em que ela anda pela casa, senta ao meu lado e me olha nos olhos. É o dia em que ela mostra a profundidade de um significado que só temos em nosso idioma.
Seu Jaime se foi há um ano. Dói tentar relembrar a última conversa, o último abraço, e o quanto essas lembranças parecem borradas. Quase inexistentes — mesmo a gente tendo certeza de que elas existiram e fizeram parte da nossa vida. Mas há um ano esse capítulo se fechou, e ainda me sinto confuso quanto aos sentimentos e às conclusões. Há um ano a lógica da vida se materializou em nossa casa, mas a ausência dele continua a ser um nó difícil de desatar. A gente aprende a andar com esse nó, mas parece que ele nunca sai do nosso peito.
É complicado que, nesses momentos, a gente apenas se lembre das angústias e tristezas deixadas. Me esforço para tentar apagar esse negativismo dos meus pensamentos, mas quando um parente se vai, acho que o peso é forte demais para se dissipar facilmente. Então, carrego as angústias e as lágrimas lançadas. Carrego o último adeus e as preces feitas. Carrego o coração pesado, porque ainda não sei como liberar essa tensão.
Claro que também carrego lembranças boas — das gargalhadas e dos momentos em família, dos abraços nas conquistas e do suporte nas perdas. Consigo, inclusive, escutar o silêncio que sempre disse muito, assim como sentir a ausência que hoje grita. Lembro de conselhos e conversas. Lembro do olhar brilhando e dos suspiros que, até hoje, não consigo compreender se eram tristes ou alegres — prefiro sempre pensar que eram alegres, e que eu não tenha causado nenhuma nova dor em sua dura e difícil jornada nos últimos anos.
Sei que devemos viver o hoje e aproveitar os vivos. Por isso, continuo minhas batalhas e busco minhas vitórias. Porque, no final das contas, tudo isso foi graças a eles — e é por eles. Tenho orgulho em carregar o nome e o título com que passei a chamá-lo. Tenho alegria em manter seus ensinamentos e tento viver de um jeito que ele possa, de onde estiver, sorrir novamente.
Entre esse mix de lembranças boas e angústias pesadas, me sustento aos poucos. E vamos criando novas memórias e relembrando dos que já foram. Vamos celebrando em voz alta com os que ainda estão aqui — e em silêncio poderoso, com os que já partiram. Sei que essa data me marcará por muitos anos — talvez pela vida toda. Mas quero sempre pensar na parte otimista da vida e espero que estejam, lá do outro lado, reunidos e nos guiando: Seu Jaime, Dona Alzira, Seu Zé e a Mika. Quem sabe, um dia, estejamos todos juntos novamente para um último abraço?
Saudade, Seu Jaime. Espero que você esteja feliz por tudo o que estamos fazendo por aqui…
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