Havia escurecido há pouco tempo, estávamos enrolados no sofá exaustos e com o filme novamente ignorado…

“Ainda bem que você me desculpou, Má”

“De novo isso linda?! Pelo amor hein…”

“Eu agiria de forma diferente, se estivesse em seu lugar…”

“Ainda bem que temos essa diferença então, né? Perderíamos o jeito aqui…”

“Sim…” e eu sabia que cedo ou tarde essa distância apareceria

“Quer uma cerveja?”

“Água, por favor”

Quando voltei, você já procurava suas roupas e começava a se vestir… Te entreguei o copo e tomei uma cerveja mudando os canais da TV, acompanhando de canto de olho seus movimentos. Eram pesados e claramente demonstravam uma irritação com todo o cenário, mas eu escolhi o silêncio e apenas acompanhava o jogo de futebol na TV.

Nós homens temos essa facilidade, de criarmos uma empatia com um jogo qualquer e totalmente desnecessário, apenas para evitarmos discussões indesejadas.

“Que jogo é esse?” perguntou você já totalmente vestida…

“Campeonato Inglês… Newcastle x Manchester City”

“Hmmm… Importante? Torce para algum?”

“Gosto do City. Mas nada demais…”

“Então eu espero acabar…”

“Pra que?”

“Você me levar embora… Pode me levar?”

“Já? Tem certeza?”

“Eu acho que sim…”

“Repete com mais clareza?”

“Tá Má, não me sinto bem…”

Eu desliguei a TV e acho que não consegui esconder minha cara de deboche, porque quando você me olhou, se fechou mais ainda. Um péssimo sinal, mas que eu estava certo que cedo ou tarde ele iria aparecer. Minha estratégia é sempre essa – Chegar no pior cenário e tentar consertar ou salvar alguma coisa…

“Tenta entender meu lado, Má, por favor…”

“Eu não consigo entender o que está na sua cabeça… O que você me falou e demonstrou hoje, eu pensei que já estava claro o suficiente. Pelo visto eu não sei da missa a metade.”

“Talvez, mas eu estou assustada…”

“Por que mulher? O que há de tão grave?”

“Não sei, mas mexeu bastante comigo essa situação toda…”

“Não tem situação nenhuma. Se você ouvir o que você mesma tá insinuando, verá o quão absurdo é a sua ideia… Você está brava…”

“Não tô brava, Má…”

“Você está incomodada, por algo absurdo…”

“Talvez absurdo para você, mas é estranho eu ficar pensando que você está aqui e pensando em como conquistar outra.”

“Cara, se você repetir isso vai ver o quão surreal é isso…”

“Pode ser que seja, mas eu fico pensando… Seremos um dia assim? Você terá esse sentimento e intensidade por mim?”

“Sinceramente? Não… Porque já te expliquei… Essa intensidade toda que você coloca como um grande acontecimento, ela não existe. É fruto de imaginação, é inventada, é criada para que a história fique bonita e intensa. Não vou sentir isso por você, porque você não vai sentir isso por mim. Estamos quites nessa parte, fique sussa… Sei bem o meu sentimento e sei controlar ele para não ficar chato para nós dois.”

“E quem disse que eu não sentirei isso?”

“Eu linda. Eu disse. E você não vai sentir, porque é tudo mentira. É inventado e não tem porque sentir isso…”

“Por quê?”

“O quê? O sentimento ou a mentira?”
“Por que não posso sentir isso?”

“Porque não tem razão. A vida é diferente da arte e da poesia. Aquilo não tem espaço por aqui. Tudo aquilo que foi escrito, é parte do platonismo e de uma ideia apenas… Nunca algo real.”

“Podemos ir?”

“Claro…”

E fui me arrumar para te levar embora. Era a última vez que iríamos nos ver. E não faria, por pura incompatibilidade de ideia, nenhuma loucura ou discussão para te fazer mudar de ideia. No fim das contas, foi engraçado e gostoso as quase quatro semanas que saímos. Descemos o elevador em silêncio e na garagem do prédio, você entrelaçou a sua mão na minha. Apertei e beijei o dorso da sua mão e guardei a intensidade do seu sorriso – inclusive enxergo agora aquele mix de alegria com um toque distante de “última vez”.

No caminho tocou Gaslight Anthem, e você lembrou que foi a primeira banda que ouviu quando fui te buscar a primeira vez na sua casa. Os assuntos foram leves e eu sabia que você não iria embora sem um desfecho digno. Chegamos ao portão do seu prédio 2 músicas depois. Você me beijou de forma intensa, ardente e querendo guardar aquela sensação na memória, para nunca mais esquecer…

“Sabe Má… Talvez eu esteja errada e sei disso. Eu vou me arrepender depois, mas acontece que foi muito insano o que senti vendo tudo isso hoje de manhã. Foi um susto, porque não era você, ou melhor… Era um Matheus tão lindo, tão intenso, tão romântico, que percebi sim que não te conhecia e nem sei se teria como conhecer. E sim, eu gostei daquilo… Porque eu nunca tive alguém tão intenso assim. Tão forte assim. Tão, não sei, infinito… E daí sim, vi que somos voláteis, tão simples e tão sem graça, que eu nem sei como você encaixaria essa nossa relação lá. Talvez eu quisesse fazer parte dos seus textos afinal. Talvez eu quisesse ver qual parte você iria usar e como finalizaria. Se as ironias e risadas estariam presentes ou se apenas os beijos e sexo estariam por ali… E aí eu pensei ‘Será que é justo com ele? Será que é justo comigo?’ e mesmo durante o nosso sexo agora eu pensei ‘Deus, é tão gostoso… Mas será que precisa ser melhor para ter aquela intensidade?’ e eu odeio essa insegurança Má… Loucura né?”

“Olha linda, completamente imbecil esses seus pensamentos… E não vou me desculpar dessa vez. Porque é tão idiota, que não merece nem comentário…”

Você sorriu, me beijou a última vez e foi embora…

Ao dirigir para casa, parei num outro boteco, fui até o balcão e joguei conversa fora com o dono. Demos umas risadas de forma totalmente descompromissada, ouvi umas histórias perdidas e até prevemos o desempenho do Palmeiras no próximo jogo. Você enviou uma mensagem 40 minutos depois, se desculpando e entendendo meu lado. Eu apenas enviei um sorriso e deletei seu contato. Era o melhor a fazer e, finalmente, você está aqui…