Você sorria de uma maneira distante. Eu tinha certeza que isso aconteceria depois de conhecer esse mundo aqui…

“E aí, sobreviveu?” tentei puxar um assunto que seria melhor falar no carro, do que no boteco…

“Eu não joguei bola, então estou bem. Você não se machucou?” senti que a pergunta era mais distante do que o esperado.

“Nada! Estou inteiro, como você pediu senhora!”

“Que bom.”

E quis o destino que o trânsito estivesse carregado, mesmo sendo sábado, fazendo que o trajeto de menos de 10 minutos, fosse maior que o esperado. Talvez por conta da chuva, talvez por outra razão qualquer…

“Você viveu tudo aquilo mesmo?” você perguntou de forma ácida.

“Depende de qual você está se baseando. Tem coisa que sim. Tem coisa que não. A maioria sim e não…”

“De novo a história dos antônimos…”

“Mas é essa a graça, eu acho. Você conseguiria adivinhar o que é verdade ou não?”

“Eu acho que seria bom saber a verdade…”

“Por qual razão?”

“Para saber quem você é”

“Eu sou Matheus, mas esse você já conhece…”

“Será que conheço?! Eu acho que não…”

“Conhece sim. Eu sou esse que está aqui. Que faz tu rir e responde a vida com antônimos, tentando ser engraçado.”

“Mas que poetiza uma solidão e comenta de um sentimento com tamanha intensidade que não sei onde você está de verdade”
“Eu estou do teu lado e tentando achar uma vaga aqui… Estamos em Campinas. E acho que podemos parar aqui e correr um pouco. Ou vai estragar sua chapinha?”
“O dia que eu precisar de chapinha, talvez faça parte dos seus textos…”

“Ainda bem que você desistiu da ideia, linda”

O almoço transcorreu bem, o garçom veio fazer as piadas de sempre e as risadas fluíram com normalidade. Mas eu sabia que não havia acabado. Ainda tinha muita coisa para você perguntar e tentar achar uma razão que eu não iria responder. Não por maldade, mas por simplesmente não ter sentido em me explicar de contos e poesias soltos por aí.

“Má, quem é ela?” foi como você retomou o assunto.

Eu olhei para trás, para parede, para o chão e para o teto.

“Quem?!”

“Você sabe quem Má… Tipo, ela é tão presente na sua escrita que não tem como ser invenção. Quando ela te deixou?”

“Olha linda, falando sério e sei que vai soar grosso, mas entenda que não quero isso… Não tem ninguém. Eu já tive dezenas de mulheres e já gostei de algumas sim. E aí a brincadeira de fazer um blog de texto é exatamente essa. Fazer um mix de momentos, de sentimentos, de imagens, de conversas, colocar o início de uma, o meio de outra, a conversa que comecei com uma, a conclusão da outra e daí criar um enredo único. Muita coisa foi que eu passei, claro! Imbecilidade demais falar que não. Mas desculpa, você não tem como saber o que é verdade ou não, até porque eu mesmo misturei de propósito, para fazer dar um bom enredo – uma nova verdade. E sabe por quê? Porque não precisa disso. O bonito é criar uma história, uma poesia, criar um início e progredir ele até o fim. Ver que um conto de três partes começou porque olhei pela janela e estavam esvaziando o apartamento e largaram a mesa com a toalha e duas cadeiras para trás. Daí eu progredi para uma espera para o jantar, uma velha na sacada e uma solidão que serviu de pano de fundo para ligar três coisas absurdas, mas que no conto ficou linda e perfeita. Então, não tem ninguém. Se tivesse, eu estaria lá. E se não estivesse lá, eu estaria lutando por ela. Não saindo, dormindo e almoçando com você… Logo… Não existe ninguém. Existiu? Claro, mas o assunto vai ser o passado, e seria ridículo e imoral falarmos dele, porque ambos não somos virgens e com certeza temos muito a enumerar aqui…”

“Você sabe ser grosso e explicativo ao mesmo tempo. Um charme”

“A parte do charme é se desculpar antes, aí eu ganho licença poética para falar tudo o que eu quiser depois. É um truque, mas eu me defendo com o ‘eu me desculpei no início’”

“Vou começar a usar, gostei dessa parte… Não posso dizer que não.”

“Dá um certo alívio, viu?”

E eu fiquei satisfeito com o silêncio após, pois tinha que te dar esse espaço para digerir tudo. Hoje admito que fui rude, mas ambos sabemos que foi o jeito certo. Pois tudo teve a luz necessária. Bebemos a cerveja, eu pedi outra para o garçom e uns bons 5 minutos eu contemplei o tempo, as pessoas e o movimento tão característico de um sábado que hoje sinto falta.

“Má, me desculpa…”

“Não tem porque pedir isso linda. De verdade…”

“Eu apenas não esperava. Assusta, sabia?”
“Eu sei. E é por isso que eu não tinha te mostrado… O choque é grande e pode ferrar a digestão, te disse de manhã”

“Aham… Talvez meus planos para hoje tenham ido para o ralo…”

“Poxa, sabia que era perigoso, mas broxante é um adjetivo novo…”

“Tenho tesão por você só de ver você falar. Mas será que você ainda tem depois de eu ser cricri iniciando o dia com uma pergunta besta e fazendo uma pseudo DR no almoço?”

“Não dá para eu mostrar aqui, viu? Sou conhecido no boteco, pegaria mal para minha reputação…”

“Besta, vamos ver aquele filme de ontem?”

“Podemos reiniciar ele e fazer uma aposta se a gente consegue assistir mais de 25 minutos…”

“Vou me controlar, quando der 30 minutos eu te ataco”

E eu sabia que mesmo com essa animação forçada, seria a nossa última noite juntos…