Era a terceira vez na mesma semana que ele fazia o mesmo pedido naquele fast-food. Sorriu ao ver que o ticket não foi impresso, mas seu pedido já estava presente no visor de atendimento…
Fingiu olhar o celular e sorriu dessa imagem de fracasso. Aquele era mais um dos muitos lugares que frequentava invisível. Não era fácil se lembrar dele, pois era comum o suficiente para ser igual à grande maioria e não fazia nada para chamar atenção. Coçou um pouco a barba por fazer, ao mesmo tempo que lembrava que havia criado um plano de dieta para tentar perder os quilos que se acumulavam no último ano. Ou seria últimos anos? Já não lembrava. Como também não lembrava quando começou a falhar com suas promessas ou quando os nomes das pessoas começaram a escapar da sua memória recente. Sorriu de novo. Era um acumulado de fracassos que ele mesmo condenou anos antes…
O lanche chegou. Comeu já sem o sabor da surpresa e sentiu toda aquela gordura velha e perigosa sendo engolida, mastigada – mal mastigada. Se acumulando em todos os poros do seu corpo e com o reflexo naquela situação deplorável que ele mesmo se colocou. Pelos quarenta minutos que ficou ali, o celular não apitou nenhuma vez. Nenhuma mensagem. Nenhuma conversa. Nada. Era o silêncio sepulcral que a sua vida havia se tornado.
Seu apartamento era há poucas quadras dali. Saiu no ar frio do outono e tentou criar um caminho diferente para as quatro quadras que separavam o fast-food da sua casa. A pontada no estômago lhe fez mudar de ideia e foi para o caminho mais rápido e seguro. Tinha um TOC um pouco sutil, mas que aprendeu em seus anos de proteção. Três toques rápidos no corpo para verificar se tudo estava em seu lugar. Chave – Carteira – Celular. Bolso da frente – bolso de trás – bolso da frente. Repetia isso de tempos em tempos, geralmente depois de passar próximo de pessoas na rua, evitando assim a surpresa de um furto. As pontadas do estômago aumentaram de intensidade e ele tomou mais um pouco da água que havia pedido com o lanche, tentando amenizar a culpa de comer aquela comida terrível novamente. “Ao menos a água vai me ajudar” repetiu em sua mente vazia, tentando criar um mantra de vida saudável.
Seu quarto e sala estava completamente escuro. O apartamento já cheirava à um ranço acumulado de frustrações físicas e mentais. Parecia que seus pensamentos já estavam ganhando uma vida putrificada em cada dobra de parede. Conseguiu chegar ao banheiro verificando novamente o celular, sem mensagens, sem novidades e reviu as mesmas fotos do Instagram que havia visto antes. Parecia que a vida havia ido dali também, nem a mentira virtual se sustentava em seu convívio.
Tentou enviar algumas mensagens para alguns casos passageiros que, como ele, não iriam ligar para muita coisa além de ter umas horas de conversa fiada, álcool e sexo sem compromisso. Esperaria a resposta, mas sabia que nada seria para aquela noite. Talvez a próxima. Talvez no final de semana. Quem sabe se fosse no domingo, depois de uma ressaca que ele beberia mais do que o normal ali mesmo em seu apartamento, assistindo jogos de futebol que nem saberia dizer o campeonato e desmaiar no colchão como se tivesse ido à uma balada forte e se divertido entre amigos e mulheres novas… Só que não.
Escovou os dentes, tomou um banho e abriu uma cerveja enquanto ligava a TV apenas para acompanhar algum som e fingir que tinha algum enredo pronto para ser vivenciado. Andava pela casa, falando sozinho. Confabulava histórias antigas, com novos finais e novas circunstâncias. Tentava entender uma das muitas derrotas que teve. Revia diálogos, decisões, tentava justificar ações e repentinos términos de diferentes ângulos. Abria mais uma cerveja. Anoitecia no mundo fora e ele ali revivendo passos que foram dados há 10 anos ou mais. O estômago se revoltava novamente. O corpo clamava por água e ele, levemente já embriagado, desfalecia no sofá tentando acompanhar um programa qualquer que estivesse passando.
O celular vibrou. Era um dos seus casos passageiros. A mensagem era melosamente falsa, como tudo ali. Como eles eram falsos. O álcool o ajudava a ser mais meigo e demonstrar um interesse que não se sustentava por muito tempo. O encontro foi marcado para a noite seguinte – Uma sexta-feira à noite. Sorriu. Abriu a janela da sala para ventilar um pouco aquele antro preso ao passado e caracteristicamente fracassado em seu presente. Olhou a rua não tão calma, mas ritmada com sua colisão de rotinas entre idas e vindas. Tomou mais uma cerveja, tentando encontrar alguma outra razão. O estômago se revirou novamente e teve que correr novamente ao banheiro.
Terminou a cerveja já caindo bêbado na cama. A TV ligada na sala e ele prometendo que faria uma dieta no almoço e não beberia até a garota chegar. Sorriu enquanto desmaiava do cansaço de mais um dia frustrante em sua rotina nada interessante. E sabia que dificilmente cumpriria aquela promessa…
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