Eu acredito que esse tipo de jornada necessita uma motivação. Nao necessariamente uma motivação, mas uma razão para se fazer, um objetivo…

Ninguém pensa em percorrer tantos quilômetros a pé, apenas pelo prazer de caminhar – OK, existem algumas pessoas que fazem isso, mas não é o caso da maioria das pessoas. Então, tudo começa de uma motivação inicial… Essa motivação, como em tudo o que envolve esse Caminho, é plural e completamente extensa. Pode ser por fé, por algo espiritual, por alguma promessa, por algum propósito, para esquecer, para lembrar, para agradecer, para voltar a viver… E não é uma decisão fácil. No início achamos que tudo parece pequeno demais (ou difícil demais). Achamos que falta algo ou até que é muita coisa para uma só ida. Nos perdemos nas diversas razões e acabamos muitas vezes pensando demais em algo que é simples apenas porque necessita ser simples… Desde que eu pensei na jornada, a minha motivação sempre foi clara: Agradecer.

Lendo assim de repente parece simples. Mas não é…

Agradecer é reconhecer tudo o que já aconteceu em sua vida, além dos dias atuais, para que te fizesse estar onde você está. É entender que muitas pessoas e muitas situações aconteceram para você se tornar o que é hoje. Agradecer não é apenas ficar contente pelas vitórias da vida, mas sim pelas derrotas também – porque elas ensinaram. É agradecer não apenas pelas pessoas que te ajudaram – superficialmente ou profundamente, mas também por àquelas que te traíram e todas aquelas que sumiram da sua vida – porque talvez isso tenha feito você ganhar mais espaço (ou critério) para conhecer pessoas melhores, que te ajudaram de maneiras que você não podia imaginar.

Agradecer é olhar para os dois lados da moeda e reconhecer excessos e faltas que te apareceram na vida, mesmo quando você os julgou injustos ou incorretos. Agradecer é também olhar para suas derrotas e pensar no aspecto que muitos te perdoaram ou estenderam a mão para que você pudesse seguir em paz. Agradecer é perdoar os que te fizeram mal, porque no fundo, te fizeram o bem.

E eu lembro exatamente o dia que pensei nessa motivação…

Foi no dia 12/01/2019. Eu estava viajando para iniciar minha “3a temporada” na Europa e menos de 40 horas antes eu tinha jogado meu último jogo de futebol. Torci meu joelho pela 3a vez e a dor estava insuportável. Eu não conseguia andar direito, não tinha posição para a perna e para ajudar peguei uma poltrona que deixou meu joelho “para dentro” da cadeira (e não consegui esticá-lo por horas). Quando pensei em tudo aquilo, eu comecei a olhar profundamente para o “outro lado” – que não costumamos prestar atenção…

Desde julho/2018 eu já trabalhava remotamente para a Irlanda. Morava em Lisboa e trabalhava para a mesma empresa de antes, mas no conforto da minha casa. Isso significava também que eu tinha um trabalho e naquele princípio de ano, meu antigo diretor já tinha dado indícios que iria me promover para outras funções. Além de tudo isso, eu estava morando na Zuropa (como costumo chamar), com uma comodidade (financeira e pessoal) tranquila e com todo um caminho de progresso bem pavimentado. Tirando o joelho que iria doer por algumas semanas, todo o resto estava bem e eu não tinha nenhum outro problema de saúde.

Nunca foi fácil pensar em todo esse “oposto”, mas naquele momento eu percebi que ter aquela mudança de foco fez meu joelho doer menos e perceber que muitas coisas aconteceram, desde a minha mudança em 2017, que eu pouco tinha dado importância. Naquelas horas dentro do avião revivi grandes descobertas, grandes vitórias, mas também as frustrações, traições, derrotas e momentos que quase me fizeram desistir, mas que por um lado completamente lógico, fizeram eu estar ali, daquela maneira, progredindo e completamente vivo. Naquele momento, nos meus quase 35 anos, eu entendi que agradecer não é apenas pelas vitórias e conquistas. Mas também precisamos agradecer as derrotas, frustrações e tristezas… Se bobear, a parte negativa é o principal motivo pelo seu atual sucesso…

Ali, naquele momento, eu fechei a minha motivação para fazer o Caminho e certo que teria MUITO o que pensar, enxergar, planejar e agradecer…