A cidade se cobria de uma névoa espessa que tornava difícil até mesmo caminhar uma curta distância. Não era comum — na realidade, era a primeira vez que presenciava algo assim ali…

Talvez mais uma mudança provocada pelo tão falado “câmbio climático” ou talvez algo tão poderoso e perigoso quanto. Ninguém sabia dizer ao certo. Conversavam e desconversavam a todo momento, mas a cidade permanecia coberta…

Enquanto alguns surgiam e desapareciam na névoa, ele continuava seguindo. Firme. Decidido. Dono de uma tensão singular. Mas, no fim, ele também estava aparecendo e sumindo para os poucos que se aventuravam pelas ruas àquelas altas horas.

Sorriu, finalmente — ele realmente estava sumindo de verdade. E gostou da sensação…

A névoa parecia envolvê-lo como um véu etéreo, dissolvendo os contornos de seu corpo a cada passo. O frio úmido grudava em sua pele, mas ele não sentia desconforto — ao contrário, havia algo viciante naquela sensação de se tornar parte do nevoeiro, de deixar de existir aos poucos.

As luzes distantes piscavam e se apagavam, como se a cidade hesitasse entre o real e o imaginário. O som de passos ecoava próximo, mas ele não via ninguém. Ou talvez estivesse começando a ver menos, a ver diferente, a ver o irreal…

Percebeu que sua mão, estendida para frente, já não parecia sua. Era um contorno difuso, algo que poderia ser apenas mais um fragmento da névoa. E então, sentiu medo — não do que estava ao redor, mas do que poderia estar se tornando ao final daquela pequena jornada.

Tentou tocar seu próprio rosto. Nada.

O sorriso se desfez. O pavor tomou conta. Os passos interrompidos. Ele tentou dar um passo para trás…

O suor brotou em sua face nula.

Onde era “atrás” agora? Se tudo parecia a mesma coisa manchada, borrada, sem definição e sem nenhuma certeza…

O que seria “certeza” então?