Abri a gaveta onde guardo as cartas que nunca te entreguei. Elas ficam ali, se aglomerando como se a repetição tivesse algum poder mágico para consertar tudo o que passou…

Já desisti de pensar nas possibilidades, razões e tentativas que tivemos em vida. Dizem que todo amor tem seu tempo. O nosso nunca teve nem relógio. Quiçá tenha havido algum tipo de encanto, mas que se perdeu no primeiro outono fora de época…

E aqui estou, mais uma vez, escrevendo uma carta para contar das minhas razões, das minhas visões e das minhas frustrações. Escrevo sempre no mesmo tipo de papel, com a mesma caneta que você emprestou e esqueceu. Talvez de propósito, talvez por desatenção. Como tudo que fazia. Era bonito ver como você não sabia o peso que tinha nas pequenas coisas — e como elas impactavam as vidas ao seu redor. Essa era uma das coisas que já mencionei nas cartas passadas, mas agora me parece repetitivo demais…

Escrevo minhas ideias, decisões e como aquelas tantas escolhas feitas impactaram minha vida — e como você sempre esteve ao redor dos meus passos. Escrevo sobre os planos traçados, as ironias do destino e a crueldade dos objetivos que se derreteram antes de se tornarem reais. Ironicamente, em uma dessas cartas do passado, te chamei de “objetivo” — porque você nunca se tornou, de fato, real. Com o perdão do trocadilho infame.

Mas você nunca foi real. De verdade.

No primeiro ano, achei que fosse só um desencontro — daqueles momentos que aparecem nos filmes que gostava de ver nas tardes de domingo. No segundo ano, imaginei que fosse uma escolha. Foi a carta mais longa que escrevi. Tinha toda uma “ira” adolescente, como se, se você aparecesse na minha frente, eu te queimaria com a intensidade que irradiava. No terceiro ano, comecei a perceber que o amor — essa palavra tola de quatro letras que tenta esconder um sentimento incompreensível — às vezes é só um monólogo bem encenado, redundante, mas que carece de ironia.

A partir do quarto ano, desisti de pensar. Já sabia que você nunca estaria aqui. Mas, mesmo assim, continuo minha saga de escrever.

Cada carta é uma tentativa de reinício. Ou uma espécie de ressurreição forçada. Escrevo como quem reza para um santo que nunca existiu, sem saber por que foi canonizado e sem conhecer os milagres atribuídos — mas rezo, torcendo para que você, um dia, lembre do meu nome.

O silêncio me faz perceber que talvez você sequer saiba da minha existência. Talvez nunca tenha lembrado dos momentos passados. Mas eu? Eu te conheci o suficiente por dois. Por quatro vidas completas.

Você virou meu segredo. Minha terapia. Minha fuga. Minha relíquia.

Às vezes, penso que sou apenas viciado na sensação de esperar. E tenho certeza de que sou a pessoa mais experiente do mundo em criar ilusões a partir do completo nada.

Hoje, enquanto a cidade se enfeita de corações, flores, perfumes e vitrines em promoção, escrevo, no meu silêncio secular, a carta de número treze. Não sei se é azar ou insistência. Não sei se é loucura ou teimosia. Talvez todos esses adjetivos sejam irmãos gêmeos univitelinos — tão iguais que apenas seus criadores saberiam distinguir. E nem quero pensar no número de cartas que se acumulam por aqui, porque, nesses novos tempos, os números falam mais sobre ideologias do que sobre amor.

“Feliz Dia dos Namorados, de novo”, assino ao final — como se a repetição te chamasse de volta.

Mas amanhã vou guardar a carta na gaveta, trancar a chave e fingir que não dói. Fingir que você vai tocar a campainha e perguntar como foi minha vida desde então. Que vai chegar aqui e iluminar o quarto que sempre sonhei em te mostrar e, ainda mais importante, vai iluminar a minha vida — que deixou de brilhar no dia em que parei de sonhar com você e comecei a te procurar no mundo real.