A casa estava prestes a desmoronar. A fundação parecia firme, mas o que a sustentava de verdade estava podre havia muito tempo…

Era questão de tempo para que tudo acabasse. Eram brigas evitáveis, níveis de orgulho tóxicos, situações constrangedoras e tantos conflitos que todos fingiam não existir. As aparências se cansariam, cedo ou tarde, e o redemoinho seria avassalador — pouco sobraria para contar qualquer lembrança daquelas que cansamos de ouvir…

Tudo ruiu quando começaram a se evitar. Escondiam-se e fingiam demência diante de uma fuga que já estava orquestrada, mas sem data marcada. Fugiam de algo inexplicável, algo que ninguém saberia apontar como causa concreta. Simplesmente queriam escapar, ver o mundo de outras perspectivas, com paredes pintadas de diferentes cores. Talvez fosse a simples disposição dos móveis, ou o conjunto de corredores extensos demais para propagar aventuras. Talvez buscassem o elo perdido em algum “rincón cruzado”, como diriam os avós marcados pelas piores lembranças…

Fosse o que fosse, ficou para trás — e a casa ruiria, cedo ou tarde. Há quem fincasse o pé e resistisse, sustentando-se em uma mentira frágil e débil. Há quem já tivesse partido, riscando o endereço da memória, esquecendo que ali viveu parte da própria história. Há quem tentasse olhar de outra maneira para as mudanças que surgiam no horizonte…

Mas todos eles, com ou sem razões, continuavam errando — e não aceitavam os próprios erros.

Por isso desmoronavam…