A primavera deixou reflexos que antes passavam despercebidos. São pequenos espelhos espalhados no ambiente — e eles fazem o sol de veraneio arder mais fundo, mais cruel…
A pele inflama, despreparada para tanta intensidade. O creme se dissolve na cortina do teatro que cai pesada, encerrando o espetáculo. O ar fica suspenso, denso como presságio, e o ambiente se dissolve numa incerteza áspera demais para se confiar nela. Ninguém sabe o que fazer, além do que já faz. Sempre perdidos, caindo sem paraquedas.
Esse é o preço pago pelas convicções sem prática, pelas promessas que nunca saem da boca. E agora, neste fim orquestrado, há quem suplique por um último beijo, um último jogo de azar, um último amor que não dure, uma última mão que os segure diante do abismo. E até a última prece ecoa, tímida, no murmúrio daquele que era ateu até o suspiro.
No último segundo ele desviou da estrada e rasgou todos os livros que haviam sido escritos. Riu dos tontos que o seguiram sem pensar. Mas chorou, quando olhou para o alto e a luz não o quis.
E rodopiou para o fim, quando a música já não existia…
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