E gritamos por nossas orações, mas não movemos uma agulha do palheiro que somos. Queremos salvação, mas nos traímos e barganhamos o melhor preço até extorquir o nosso próprio futuro…

Havia um relâmpago sob o teto quando a xícara brindava a busca por um sentimento. A lua foi testemunha, alta no céu empoeirado e denso, depois de tantas implorações sem destino fixo. O táxi esperava no meio da esquina, com seus buracos de bala e planos fracassados. As drogas vendidas no submundo vinham com instruções claras e soluções rasas. Havia uma garota com dinheiro de sobra para fugir daquele momento, mas ela preferiu ficar e beber até desaparecerem suas razões. Havia um homem, pele e osso, residente do lar programado com suas enormes janelas, que enxergava tudo, mas não via nada.

Como levar isso adiante, se o adiante é tão tenebroso e pútrido que não podemos controlar? Como encontrar um caminho escondido se não podemos ver? Como conquistar a tão sonhada nova vida, se todas as luzes são vermelhas e bloqueiam nosso passo? Como seguir adiante, se a escuridão nos tirou o senso de direção?

Há escolas e fábricas. Há moldes e modelos. Há uma dezena de vidas, mas apenas um tabuleiro. Os dados se lançam, as vidas se movem, casa após casa, simulando uma vitória contida e pré-definida.

Gritamos novamente, desejando ser fugitivos e procurados. Mortos por explosão — mas, ao menos, teríamos uma fração de segundo para sonhar com algo que eles jamais pudessem imaginar. No segundo seguinte, estaríamos mortos, no meio daquele teatro incandescente…