Há algumas semanas fui passar o final de semana para visitar um amigo cujos filhos faziam aniversário…
Eu sou do tipo “básico solitário” em aeroporto: sempre estou com fones no ouvido e tento (por gostar desses locais) prestar atenção em tudo o que se passa ao redor. Foi então que um senhor, beirando os setenta, com cara de quem precisava de ajuda, me enxergou há poucos metros.
“Oi, filho, bom dia! Desculpa atrapalhar, mas acho que você é o único que não está com a geringonça na mão… Pode me ajudar a entender onde espero o meu avião?”
A “geringonça” a que ele se referia era o celular. Expliquei o caminho e brinquei:
“Só toma cuidado, porque às vezes as pessoas não enxergam e acabam te atropelando!”
Ele riu e respondeu: “Se fosse contar, eu já teria perdido a conta!”
Seguiu para o seu portão e eu voltei aos meus pensamentos. Ao redor, pelo menos vinte pessoas em um raio de poucos metros: todas olhando para o celular. Facebook, WhatsApp, Instagram, TikTok… pulavam nas telas, e nenhuma interação existia: nada de conversa, olhares ou suspiros. Apenas telas e mais telas.
Foi quando percebi: estamos neuróticos com isso. Esquecemos aniversários de amigos “se o Face não avisar”. Esquecemos reuniões, mas nunca de levar o celular. Há poucos anos bastava combinar vagamente um horário e um lugar — e a gente se encontrava. Hoje tiramos selfies, fazemos check-in, marcamos quem está do lado, mas conversamos mesmo é com quem está a quilômetros de distância.
Falam que sou louco, mas nas férias deixo o celular de lado e vivo o momento presente, sem me importar em dar satisfações ou avisar que estou vivo. Meus pais sempre diziam: “Só liga se acontecer algo; caso contrário, divirta-se!”. E acho que essa regra só existiu na minha casa. Cansei de viajar com amigos que só procuravam Wi-Fi, mais interessados nas curtidas das fotos do que nos cenários à frente.
Estamos tão presos à “geringonça” que desaprendemos como é passar um jantar inteiro apenas conversando e interagindo com as pessoas que estão fisicamente conosco. Sempre temos uma desculpa para o famoso “Pera aí, deixa eu ver se acho!”. Informação demais, significado de menos.
Esquecemos de ajudar os outros, de olhar para o lado e apenas observar uma cena engraçada. Como o sujeito que vi pulando malas para jogar fora sua cerveja às 8h30 da manhã — cena que antes renderia risadas. Mas hoje isso ficou “feio”. O famoso: “Toma conta da tua vida! Deixa o cara fazer o que quiser!”. E, talvez, você mesmo tenha compartilhado um vídeo parecido há poucos minutos.
Mas assim vale, porque você viu na sua geringonça — até porque a vida real não tem curtida, né?
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