Admito que demorei para viver o Caminho de Santiago de maneira mais aberta e receptiva. Ainda carregava meus medos, anseios e tinha certa dificuldade em aceitar que as mudanças começavam a surgir na minha vida…
Revisando meu diário do Caminho, é nítido perceber o quanto eu estava receoso. Ao mesmo tempo em que me alegrava com toda a paz e “facilidade” com que vencia as etapas, no parágrafo seguinte surgiam receios, medos ou uma angústia solta. Era como se houvesse uma situação mal resolvida que pesava no corpo e tornava o Caminho mais complicado. Tinha medo das etapas seguintes, tentava começar o mais cedo possível para conseguir terminá-las de maneira razoável, e me frustrava com a chuva que caía praticamente todos os dias — mesmo ela não atrapalhando em quase nada: eu tinha uma jaqueta boa, o calçado estava firme e me sustentando muito bem, e minha capa protegia a mochila e tudo o que levava dentro.
De alguma forma, nesses primeiros dias, eu estava no modo 8 ou 80. Ou ficava receoso, pensando demais nos possíveis problemas e percalços, ou entrava em um estado de alegria plena pela experiência, leveza e felicidade que o Caminho me proporcionava.
Acho que a virada de chave aconteceu na Etapa 4 — de Pinheiro da Bemposta até Grijó. Foi a primeira grande etapa que fiz, com praticamente 35 quilômetros, e com isso vieram dois receios que me acordaram às 4h da manhã: caminhar mais de 30 km num único dia (as outras etapas iam de 25 a 28 km, no máximo), e o fato de que o albergue de Grijó não aceitava reserva — funcionava por ordem de chegada. Decidi iniciar a etapa às 4h30 e fazer o meu melhor para chegar inteiro ao albergue e garantir uma cama.
Foquei tanto nisso que não estava preparado para o que o Caminho me colocaria como ensinamento naquele dia…
Os quase 35 quilômetros foram percorridos sob chuva forte, com grande parte do trajeto em subidas íngremes e difíceis (em estradas, ruas ou trilhas). Pela tensão de ver o tempo passando enquanto eu caminhava cada vez mais devagar, fui desistindo da ideia do albergue e pensando em alternativas — cogitei, inclusive, seguir até Gaia e pegar um hotel (de Grijó até Gaia seriam mais 10 km, o que, no fim das contas, nem seria um problema tão grande). Quando decidi “desencanar” das preocupações, o peso aliviou e comecei a aproveitar a etapa — mesmo com as subidas aparecendo a cada nova curva. O resultado? Cheguei ao albergue antes de ele abrir e fui o primeiro a fazer o check-in. Nem precisava ter me esforçado tanto: havia espaço para todos, e ele nem chegou a lotar.
Depois de um merecido banho, conheci um irlandês chamado Pete. Ele foi a primeira amizade feita no Caminho — e foi aí que tudo mudou.
Pouquíssimas pessoas sabem, mas em 2022 decidi mudar de emprego por conta de uma oportunidade que, na teoria, era excelente e vantajosa em muitos aspectos — profissionalmente, pessoalmente e financeiramente. Era um daqueles raros momentos em que tudo parecia conspirar para dar certo: um verdadeiro “win-win”. Depois de um longo processo seletivo e bons benefícios, assinei o contrato e comecei a trabalhar. Na primeira semana, me senti perdido, mas achei que era normal. No primeiro mês, continuei me sentindo estranho. A partir da sexta semana, já me sentia deprimido e sem vontade de aprender ou interagir com as pessoas. Ao final do segundo mês, estava arrependido, e tudo o que precisava fazer me irritava e tirava minha alegria. Era a primeira vez que me sentia assim. Em quase 18 anos de carreira, nunca havia me sentido tão deslocado. E mais do que uma questão de adaptação, era como se eu não pertencesse àquele ambiente — e o detalhe é que o trabalho era 100% remoto, ou seja, eu nem saía de casa. Após o terceiro mês, pedi demissão antes mesmo do fim do período de experiência. Voltei à minha antiga empresa em um novo projeto, cinco meses depois.
O tempo passou, a vida seguiu, mas não posso mentir: aqueles três meses ainda estavam vivos na minha mente. Volta e meia, eu me pegava pensando no porquê de tudo aquilo ter acontecido daquele jeito.
No Caminho, uma das coisas mais interessantes é que quase nunca se fala sobre trabalho. Parece que todos ali compreendem que estamos como pessoas, e não com nossas máscaras, títulos e currículos. Somos simples peregrinos, carregando nossas cruzes e aflições. Por isso, as primeiras perguntas são sempre: “Qual seu nome?” e “De onde vem?”. Depois, se a conversa flui, vem o clássico “Por que está fazendo o Caminho?”, e a partir daí passamos horas — ou dias — falando sobre os temas mais leves e humanos possíveis. Conheci dezenas de pessoas e acho que sei a profissão de, no máximo, cinco — porque mantivemos contato e abrimos espaço para outros assuntos. Das demais, nem faço ideia, e isso não muda em nada o carinho e o respeito construídos nos nossos encontros.
Mas com Pete foi diferente. Eu havia terminado meu banho e voltava ao quarto para arrumar a mochila e separar a roupa do dia seguinte. Pete e sua amiga Louise (que também dividia o quarto naquela noite) estavam saindo para tomar banho. Perguntaram meu nome, respondi, e antes de sair, Pete me perguntou:
— Desculpa a pergunta, mas você trabalha com o quê?
Como era minha primeira amizade no Caminho, não estranhei a pergunta. Expliquei minha profissão e a empresa onde trabalho. Ele brincou dizendo que o nome era praticamente igual à empresa em que ele trabalhou. Arregalei os olhos quando ele falou exatamente o nome da empresa onde eu havia passado aqueles três meses…
Pete trabalhou nela por muitos anos, como auditor interno — uma área criada para realizar “auditorias oficiais” internas antes da vistoria de órgãos reguladores. Em uma dessas auditorias, começaram a investigar movimentações suspeitas de produtos. Resumidamente, descobriram um esquema de desvio de mercadorias que acabavam sendo ativadas em locais controlados por grupos terroristas. As investigações concluíram que os desvios eram feitos — e acobertados — diretamente pela presidência da empresa. Quando o relatório foi inserido no sistema, no dia seguinte tudo havia sido apagado. Os acessos de Pete, seu time e até de seu diretor foram removidos. Poucos dias depois, todos receberam propostas de “acordo amigável” para deixar a empresa.
Cada detalhe me surpreendia mais. Contei a ele como me senti desde o início naquela empresa — uma sensação estranha, inédita, confusa. Conversamos por uns 20 minutos — tempo suficiente para Louise voltar do banho e reclamar que estava com fome e que ele precisava correr para o jantar. Antes de sair, Pete disse:
— Desculpa, mas quando te vi, não sei por quê, senti que precisava te perguntar com o que trabalhava. Acho que agora nós dois entendemos, não?
Dei uma risada afirmativa, mas no fundo sabia: era tudo obra do Caminho. E entendi que Ele ainda tinha muito a me ensinar — e a lavar da minha alma.
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