Acompanhando ao mesmo tempo o choque inicial e o entendimento de que o Caminho iria me ensinar muitas coisas, cheguei ao momento de deixar as tensões e preocupações de lado para desfrutar da jornada de forma intensa e transparente…

No dia seguinte à conversa com Pete, deixei Grijó para trás já sabendo o que me esperava nos 15 km seguintes até Porto: muita reflexão, aceitação — e chuva. Nas poucas horas caminhadas, tive a possibilidade, como já havia vivido em 2019, de começar a olhar meu entorno com outra perspectiva e entender, com mais clareza, tudo o que estava acontecendo comigo naquele momento.

Já era o quinto dia de caminhada, e até então nada havia saído errado, fora de controle ou drasticamente distante do planejamento. Pelo contrário: as etapas estavam fáceis, o corpo (e o joelho) se recuperando bem durante o descanso, e eu não tinha qualquer indisposição ou gripe para atrapalhar meu Caminho. Mesmo assim, por algum motivo que eu ainda não compreendia, estava muito focado no “objetivo” da jornada — agradecer por tudo o que havia acontecido na minha vida. Mas, ao me fixar tanto no passado, eu estava esquecendo de agradecer o que estava acontecendo agora.

Se a cada passo eu dizia “Glória a Deus” pelas bênçãos anteriores, dava pouca ou nenhuma importância às pequenas vitórias do presente.

No albergue de Grijó, onde conheci mais peregrinos, quase todos estavam sofrendo: dores no corpo, bolhas nos pés, cansaço. E eu? Nada. Nem dor, nem bolhas. E, sabe-se lá por quê, eu não agradecia por isso.

Outro ponto importante é que, durante o planejamento, eu havia incluído uma “mini pausa” em Porto para me recuperar caso algo desse errado — lesões, desconforto, cansaço. Mas como estava me sentindo incrivelmente bem, poderia ter seguido direto, sem problema algum. No entanto, resolvi manter o plano original e aproveitar um pouco a cidade com a qual sempre tive uma relação difícil. E ainda bem que o fiz.

Cheguei a Porto sob uma tempestade surreal, mas o dia seguinte amanheceu completamente limpo. Sem uma nuvem no céu. Um dia perfeito para lavar roupa, reorganizar a mochila pela décima vez, deixar itens para trás e aliviar o peso nas costas. Caminhei pela cidade sem pressa, sem procurar setas, sem objetivo além de simplesmente estar ali. Comer bem, andar sem rumo, ver o dia passar. E pela primeira vez desde o início da jornada, senti que não precisava procurar nada — só viver.

Se Grijó foi onde abri os olhos, Porto foi o verdadeiro divisor de águas do meu Caminho. O dia de descanso me ensinou que nossa bagagem tem valor — porque nos moldou até aqui —, mas a maneira como caminhamos no presente é igualmente importante. Aquele dia de sol, de fotos aleatórias, de passos leves, de bons pratos e cervejas geladas, me trouxe de volta ao meu “eu verdadeiro”. Aquele que, por alguma razão, estava escondido entre as tensões, ansiedades e agonias que me levaram a planejar esse Caminho.

Naquela noite, com a mala pronta, roupas limpas e a mochila mais leve, agradeci. Agradeci pelo presente. Pelo sol. Pela leveza da alma. Pela oportunidade de estar ali. E pelas bênçãos físicas que me protegiam das dores e lesões.

A partir dali, sabia que encontraria mais peregrinos rumo a Santiago. E estava pronto para compartilhar minha experiência — faça chuva ou sol, com passos firmes e coração aberto. Eu continuaria agradecendo pelo passado, pelos ensinamentos, pelos presentes recebidos. Mas, e tão importante quanto, aprendi a agradecer o hoje.