Quando decidi fazer o Caminho, minha ideia era percorre-lo completamente sozinho. Fazer todas as suas jornadas em uma viagem solitária, introspectiva e intensa em todas as batalhas, físicas e mentais, que eu deveria viver. Mas, o Caminho tinha outros planos para mim…
Iniciei a jornada em Coimbra, Portugal. Um lugar que não é muito conhecido como início da jornada, onde geralmente as pessoas começam ou em Lisboa ou em Porto. Mas, como já expliquei aqui, Coimbra era o meu início de vida na Europa e fazia todo o sentido para eu iniciar ali. Pois bem… Coimbra não é um ponto de início muito famoso, assim que os primeiros passos foram em uma solidão nervosa, desafiadora, engraçada e até certo ponto confortante. Era o momento que eu esperava e até certo ponto já estava acostumado. Quando digo solidão, era algo praticamente total. Eu não cruzava com peregrinos e fui falar o meu primeiro “Bom Caminho” lá pelo 3º dia…
E essa é a parte engraçada. Fiz o Caminho logo no início de maio, que é o mês onde Portugal praticamente vive uma peregrinação. Mas não para Santiago de Compostela e sim para Fátima. Milhares (para não dizer milhões) de portugueses fazem essa peregrinação e programam para chegar à Fátima até 13 de maio, que é o dia de Nossa Senhora de Fátima.
Porém, a maioria dos portugueses caminham pelas estradas – e não pelo Caminho em si (que é exatamente o mesmo de Compostela, mas na direção contrária). Fazendo com que eu não cruzasse com quase ninguém.
De vez em quando, quando chegava à uma cidade ou fazia uma parada para água, cruzava pessoas na direção contrária que gritavam “BOM CAMINHO” e eu acenava e correspondia… Mas, na minha direção nada. Ninguém que eu pudesse cruzar até chegar em Grijó, que foi o primeiro dia que conheci e conversei com outros peregrinos para Santiago – mas isso eu já contei aqui. Além de que no meu Diário, tem uma parte de “Caminhei com…” e eu nos primeiros dias sempre coloquei “DEUS” porque era sempre a minha companhia. Ninguém ou “nada” mais…
A chave virou logo depois de Porto. A quantidade de peregrinos caminhando na mesma direção que eu, aumentou bastante e pude enfim ter uma ideia do que é realmente o Caminho de Compostela no quesito “gente”. Logo na etapa 6, entre Porto e São Pedro de Rates, conheci duas pessoas, a Catherine, dos Estados Unidos, e a Rubi, do México, que acabou virando a minha grande companheira de viagem…
Nos encontramos ao “acaso”, mesmo essa situação não existindo no Caminho, e descobrimos que ficaríamos na mesma cidade naquele dia. Eu e a Rubi tínhamos o mesmo albergue “reservado” e a Catherine tinha reservado outro uma rua antes. Assim, pudemos conversar e nos conhecer por boas horas de caminhada no sol (curiosamente, foi o primeiro dia de SOL que eu pegava no Caminho).
As duas tinham iniciado em Porto, assim estavam ainda se acostumando com a dinâmica do Caminho e eu, que já levava 6 etapas nas “costas”, pude clarear algumas dúvidas, ansiedades e curiosidades para elas. Não me sentia “experiente”, mas ao menos pude expressar minha opinião das coisas e situações que já havia vivido nos dias anteriores.
Chegamos à São Pedro de Rates, com praticamente 27 graus, e fomos almoçar e depois ficamos bebendo cerveja no bar em frente ao albergue. Ali, conversamos mais, rimos mais, conhecemos mais pessoas e que estavam vivendo a mesma aventura…
Acredito que ainda não tínhamos a noção do poder do Caminho e não nos abrimos muitos naquele primeiro dia. Não perguntei qual a razão das pessoas estarem no Caminho, não perguntei o que elas buscavam… E tampouco fui perguntado.
Lembro que tive a sensação de ser um “tema proibido” ou algo tão pessoal que parecia não nos pertencer ou não fazer sentido entrar em tantos detalhes… Apenas ficamos bebendo cerveja, contando piadas e situações engraçadas das nossas vidas e fomos dormir, sem um plano para o dia seguinte, sem um “até amanhã” ou coisa que o valha. Cada um dormiu em sua própria vida e com seus próprios sonhos e angústias.
Mas o Caminho sempre muda, e muda rapidamente.
Minha etapa 7, entre São Pedro de Rates e Tamel, começou pouco depois das 6h da manhã. Logo na primeira hora, vi que havia um cara que caminhava rápido e me alcançou em poucos minutos. Seu nome era Jhon, um canadense, que estava caminhando com o seu filho, Stephen, que não estava com ele “porque é jovem, caminha muito rápido. Então ele dorme 1h ou 2h mais e depois me alcança. Juventude!” nas palavras do próprio pai.
Jhon é uma daquelas pessoas que desde o primeiro “Olá”, você se sente bem e quer conversar mais, mesmo eu sabendo que o atrasaria pelo meu passo mais devagar. Ele me perguntou da onde eu era e porque estava ali… Eu respondi com toda a minha explicação resumida de agradecimento por tudo e por todos que passaram em minha vida. Ele parou e me olhou surpreso…
“Nossa! Que bonito. Parabéns pela iniciativa. A gente nunca para realmente e tira um tempo para fazer isso. Agradecer o que a gente tem, o que a gente teve e quem chegou e se foi nas nossas vidas. Realmente, muito bonito. Parabéns Matheus”
“Obrigado. Mas sim, acho até importante a gente agradecer o que a gente perdeu, porque, se pararmos para pensar, foi aquela derrota que mudou alguma coisa, que permitiu a gente viver o que vivemos hoje. Como uma limpeza que as vezes a gente ignora e acha ruim, mas nunca para realmente para ver o quão positiva foi em nossa vida…”
“Exatamente, muitas vezes a gente é imediatista, porém se a gente não tivesse perdido ou passado por alguma coisa que nos magoou, a gente nem teria se encontrado hoje.”
“Viu só? É mais ou menos por aí… E você? O que te traz ao Caminho?”
“Eu fui pastor por mais de 30 anos. Foi meu trabalho, onde eu formei família e tudo mais… Mas por motivos diversos, eu perdi a minha fé. Eu estou fazendo o Caminho para reencontrar essa fé…”
“E por que você acha que a perdeu Jhon?” – eu perguntei
“Porque eu não sinto mais a fé de antes… Eu passei a questionar. Eu passei a enxergar outras coisas que a Igreja não me deixava e isso foi me distanciando, até isso.”
“A Igreja não te deixava? Não entendi…”
“Existem certas diretrizes né? Ações, pensamentos, condutas… Que a gente deve seguir, como pastor. E isso começou a conflitar com algo que é muito próximo de mim…”
“Mas Jhon, você não concorda que a sua fé é muito maior do que um conjunto de políticas, regras ou o que quer que se chame? A sua fé é em Deus, Jesus Cristo e Espírito Santo, não? “Eles” não estão acima de uma Igreja que pauta suas regras em decisões humanas?”
“É. Você tem um ponto…”
“Não acho que seja um ponto… Acho que é isso mesmo. Eu não sou uma pessoa muito religiosa, mas tenho minha fé, meus princípios e meus pensamentos… Não sigo um livro específico, porque esses livros foram criados por homens e divulgados de uma maneira praticamente criminosa. Se pensarmos que a Igreja Católica, VENDIA lugar no céu há alguns séculos atrás… E você vê quantos escândalos, quantas opiniões estranhas e mudanças de direções tivemos nas últimas décadas… Como podemos “confiar” em algo que parece defender mais seus próprios interesses do que os ensinamentos daquele que eles juram seguir?”
O Jhon parou pela segunda vez de caminhar e eu sorria pensando que, se ele parasse a cada 5 minutos, ele demoraria 10 meses para completar o Caminho, por mais que caminhasse rápido.
“Posso te dar um abraço?”
Rimos e nos abraçamos.
Jhon me contou o que o fez se atrasar da igreja. Foi a segunda confissão que ouvia no Caminho e aprendi que seria assim – uma hora seria minha vez e fiz exatamente o que gostaria que fizessem comigo. Desse espaço para a pessoa falar, desabafar, ser apenas um ouvinte daquela tensão e/ou sofrimento que a pessoa sentia.
Conversamos por quase 1 hora e chegou o momento que o deixei ir. O Caminho já começava a se mostrar mais claro para o Jhon e nos despedimos.
“Você vai até onde hoje?” perguntou ele antes de seguir adiante.
“Pretendo ir para Tamel.”
“Vai ficar no Albergue de Peregrinos?”
“Sim… No Recoleta.”
“Eu também! Que excelente. Te pago uma cerveja quando chegarmos? É o mínimo que posso fazer para te agradecer, Matheus. Você não faz ideia do quanto me ajudou…”
“Não precisa agradecer. Não fiz nada que você já não sabia. E sim. Aceito a cerveja! Brindaremos juntos mais tarde!”
E assim ele seguiu adiante.
Naquela tarde, nos encontramos no Albergue conforme combinamos e conheci o Stephen que, como o pai, é uma pessoa extraordinária. E o Jhon confessou, que logo depois que nos despedimos, ele refletiu sobre tudo que falamos e chorou como uma criança por mais de 1 hora. Tirando todo o peso que ele levava há anos no coração.
Naquele mesmo dia, conheci muitos outros peregrinos. Havia gente que estava no dia anterior, que por conta da quantidade de gente, eu não tinha conversado. Havia gente que havia visto pela primeira vez. E inclusive, havia gente que havia cruzado por mim e que acabamos nos conhecendo ali. Jantamos todos juntos, na praça em frente ao Albergue e bebemos praticamente toda cerveja que estava na geladeira (e eram muitas). Depois de 8 jornadas, o Caminho finalmente se apresentava com o que eu já havia lido diversas vezes: Somos todos como uma família, mas sem os laços de sangue. Como escrevi no relato do diário:
“Depois jantamos e ficamos mais de 8 pessoas conversando sobre diversos temas: desde carros, viagens, religião e xenofobia. Tomamos mais de 60 cervejas – quase a totalidade do bar e terminei a noite com o Max, um alemão, falando ‘parece que nos conhecemos há anos! E você percebeu Matheus, que ninguém aqui esteve com o seu ego ligado? Éramos como enormes amigos, ajudando, rindo e apoiando uns aos outros, sem nada mais importar…’”
E por isso que necessitava dessas amizades para seguir a caminhada.
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