Ele sempre sonhava, mas nunca se lembrava dos seus sonhos. Acordava com uma pontada na cabeça e um apagão na memória tão corriqueiro que já era seu despertador natural…

Demorava agora quase cinco minutos para se situar e tentar entender o que havia acontecido para chegar ali. Enquanto ainda controlava o nível da dor, o enjoo e a vontade de vomitar, ia processando onde estava e o que havia ocorrido nas horas anteriores.

Mudava de lugar como quem troca de roupa. Era uma daquelas pessoas que estão sempre em movimento e parecem viver o mesmo dia repetidas vezes, mas de formas diferentes. Nunca estava em sua própria cama — ou sequer em sua própria casa. Mesmo quando era sua casa, sempre parecia diferente. Passava tanto tempo fora que já não lembrava como era seu próprio quarto. Seu próprio lar.

A ressaca vinha cada vez mais forte, mas ele se esgueirava para sair da cama, tentava lavar o rosto e lembrar de algo. Havia alguém ao seu lado. Às vezes era uma mulher. Outras, um homem. Já não sabia como escolhia — ou como era escolhido. Provavelmente não havia dormido muito, pois seus acompanhantes sempre dormiam pesado e não percebiam quando ele se levantava. Mas ele pouco sabia se havia dormido três ou dez horas. A única certeza era que sua cabeça parecia prestes a explodir.

Chegava ao banheiro por pura intuição, lavava o rosto e escovava os dentes com a primeira escova que encontrasse por ali. Nunca era a mesma. Nunca era a sua. E, se era, ele também não se lembrava.

Olhava-se no espelho, mas não via nada além do automático. O intestino reclamava, o estômago doía, e a náusea implorava por alívio… Depois de usar o banheiro, recolhia suas roupas, seu celular quase descarregado, e saía. Deixava a porta aberta, porque ninguém iria roubar ali.

Buscaria um café e o metrô mais próximo. Seguiria para mais um dia — e tentaria, ao menos, aliviar a dor de cabeça…