Meus textos mudam de tempos em tempos – seja pelo estilo ou até pelo cenário. É como um ciclo, mas nunca uma repetição…
Sou daqueles que consegue inspiração na vida ao redor. Seja uma situação vivida ou uma conversa ouvida por acaso. Seja um perfume diferente ou até mesmo um som que me traz uma recordação. Meus textos são guiados muito pelo que meus olhos veem, e daí a mente divaga até se transformar em palavras escritas.
Por isso, existem temporadas em que os textos seguem a mesma temática. Como se fizessem parte de um imenso livro, mas sem capítulos definidos. Isso mostra o que eu tenho feito e visto. O que eu tenho vivido e pensado. O que eu tenho sofrido e desabafado…
Escrever, para mim, é mais do que um hobby qualquer: é a minha terapia diante do mundo. É o momento em que reflito sobre tudo o que me acontece e tento, sem saber bem como, transcrever sentimentos e angústias na forma de histórias. Muitas são curtas, porque nunca chegam a uma conclusão. Outras são longas, porque as compreendi melhor e tento incluir o máximo de detalhes e contexto possível.
Muitos não acreditam, mas, de uma simples frase que ficou martelando na minha cabeça por duas semanas, nasceu Confissões Roubadas de Vidas Passadas, com suas 26 páginas divididas em 16 capítulos. Uma frase — e tudo isso se criou.
Essa é a minha forma de expressar e elaborar meus problemas. Externo meus fantasmas para que ganhem forma e me deixem dormir tranquilo. Externo as aflições em forma de poesia abstrata, mas cada frase que parece desconexa carrega uma imagem escondida que eu teria calafrios em internalizar. Com isso, eu escrevo, e assim elas ganham contexto para que eu as esqueça completamente.
Desde que decidi fazer o Caminho de Santiago, tenho caminhado muito mais, e agora criei o “hábito” de, algumas vezes na semana, ir andando até a academia. Saio de casa às 5h30 e caminho por 45 minutos até chegar à Barceloneta e ao clube onde nado ou treino. Passo por ruelas, atravesso parte do centro, cruzo com bêbados e sinto o cheiro de uma cidade que tem diversas faces — a artística para quem assim a enxerga, a romântica para os sonhadores, a insana para aqueles que buscam festas e exageros, ou a de uma eterna prisão para quem não consegue sair daqui.
Desses passos e sensações, ganho contexto para contar minhas aflições e medos. Transcrevo uma insônia ou uma angústia e as coloco em frases de uma cidade que transpira opções mortas. Descrevo meu cansaço ou uma tristeza acentuada em meio a uma rua que tinha tudo para ser imponente, mas se transformou em um banheiro público sem portas. Conto minhas alegrias e vitórias com uma Barcelona que pulsa vibrante, ferve sob um sol que doura a pele e relaxa os ânimos.
Roubo uma conversa fora de contexto e logo a transformo em um diálogo que nunca existiu, mas que eu gostaria muito que fosse verdade. Lembro e invento situações para que as duas partes pareçam felizes, ganhem suas próprias vidas e se tornem parte de uma história contada.
E sim, muitos (ou quase todos) dos meus textos não têm um final feliz. Porque isso, infelizmente, eu ainda não aprendi a escrever ou transcrever. Minha inspiração vem da dúvida, da angústia, da tristeza e dos dias nublados e confusos.
Nos dias ensolarados e felizes, eu estou vivendo a vida real e aproveitando, sem pensar no fardo pesado que carrego dentro dessa mente que insiste em nunca parar para descansar ou tirar férias.
Quem sabe um dia eu consiga abandonar essas angústias ou transformar os medos em alegria pulsante — em uma cidade qualquer que me dê todas as maneiras de poetizar a quase perfeição que é viver?
Conte-me algo aqui...