Gostaria de apertar a mão do meu velho amigo e dizer que a busca pelo azul promissor deu certo e que todos os percalços mostrados foram apenas um pouco do degrau que construí até aqui…
Gostaria de dizer o quanto agradeci pelo pouco que aprendi do mundo e das pessoas, dos locais e olhares vazios, e do tão longe quanto a mente jamais poderia imaginar. De se sentir invisível num bar lotado, com uma língua que jamais pude traduzir, desistindo de tentar logo no segundo copo! Das vezes em que tive que sorrir, e isso abriu um novo mundo para desbravar. Dos convites realizados, das surpresas do meu caminho, da embriaguez alta e dos leves esbarrões que me levaram a beijos ensandecidos e desconhecidos.
Gostaria de poder trazer cada história e pessoa que conheci no trajeto até aqui, cada risada ou lágrima caída – muitas delas secaram antes de chegarem ao chão, falsas assim como todas as promessas de retorno breve e caloroso.
Gostaria de listar todas as cores, dos tons do sol nascendo por trás de um frio congelante ao alto luar no verão litorâneo. Gostaria de trazer um pouco de cada sabor encontrado no caminho, dos temperos que sonho todas as noites e de todas as vezes em que me permiti ir além do que minhas economias cismavam em gritar que não poderiam – elas sempre puderam.
Hoje venho aqui, neste bar de anos atrás, e encontro a mesma solidão de antes, o mesmo vento frio que cisma em existir nessas terras populares. Aguardo meu amigo chegar para que eu conte tudo e desenfreie todas as histórias que fizeram meus olhos brilharem nos últimos anos.
Ele não chega. Penso que aconteceu algo, algo até pesado como a morte – mesmo eu já não acreditando mais neste fardo.
Meu telefone vibra com uma nova mensagem. É desse amigo, desmarcando o encontro, pedindo desculpas e dizendo que tentará outro momento para nossa conversa.
Dou um leve sorriso e desabafo: pelo menos as pessoas do mundo são todas iguais!
Me levanto para pagar a conta e transformar tudo isso em mais uma história…
Conte-me algo aqui...