A cidade acorda com hálito de fritura fria e silêncio suado. O sol espreita os cantos como quem não quer ver, mas vê — o papel engordurado de um pecado carnal que antes ousávamos esconder mais…

Ali jaz o segredo, aberto como uma epístola mal lida aos deuses do fast-food. Ao redor, o exército vencido de canudos tortos, rodelas de limão e copos com urina, porque não havia banheiro por perto. Na caixa seguinte, um relicário de vidro: garrafas vazias como promessas feitas de madrugada — cada uma com o eco de um riso, de um grito, de um beijo torto e de um orgasmo falso, forjado.

A cortina dança, sem plateia, ao som de uma música que ainda sangra em sussurros elétricos — aquela batida indecisa entre o fim e o recomeço. A luz permanece acesa como um olho que esqueceu de dormir, vigiando o altar profano da noite anterior — a sala onde corpos colidiram e esqueceram os nomes. A farra bendita deixou seus vestígios: glitter no chão, um salto solitário no canto e o cheiro indefinível de suor, perfume barato e um sonho derretido de preservativos trêmulos, ainda úmidos, esquecidos na penumbra do canto oposto.

É domingo, talvez. Ou qualquer outro dia deformado pelo excesso. A rua respira o que sobrou. E o que sobrou ainda pulsa — no lixo, nas garrafas, na música que não se cala. Uma cidade feita de restos, mas ainda viva — e que insiste em pulsar na mesma direção…