Depois de um grande feito ou de uma grande jornada, é muito comum contarmos as histórias que vivemos durante aquele momento…

Contamos com detalhes o que mais nos impressionou, relembramos as grandes histórias, explicamos como fizemos e o que deu certo. Em um segundo momento, falamos sobre o que deu errado e também sobre o que ficará marcado em nossa memória “para sempre”.

Quando contamos a história cem vezes, começamos a perder os detalhes iniciais e a relembrar de outros. Algumas imagens saltam em nossa cabeça, e nos assustamos por não termos lembrado delas anteriormente. Relembramos cheiros e sensações que não havíamos notado até então. Um café da manhã perdido é um gatilho para revivermos um dia inteiro de “normalidade” — e, assim, vamos preenchendo nossas memórias: pequenos fragmentos que nos transportam diretamente para aqueles dias do passado.

Isso não é algo ruim. É parte da normalidade da vida. Quando pensamos uma vez em determinado assunto, as imagens que surgem são as mais impactantes no momento presente. Mas, obviamente, todas as outras estão em nossa mente e em nossos corações. Apenas precisamos de tempo e concentração para que reapareçam diante dos nossos olhos — isso não é emocional apenas, é também um tema “científico”, que possui toda uma técnica para ser aplicado e alcançar resultados.

Enfim, isso acontece com todos nós — e não seria diferente comigo. Há pouco mais de um ano, eu estava entre a preparação, a vivência e a conclusão do Caminho de Santiago de Compostela. Foram meses de preparação e 16 dias que separaram meu primeiro passo até a “conclusão oficial”, com a Compostela nas mãos e 407 quilômetros caminhados. Os primeiros retratos dessa jornada já foram contados aqui. Mas, e o resto?

Se o Caminho é, para muitos, a maior experiência de vida, para mim seriam apenas aqueles 9 capítulos e 12 páginas escritas? Se, quando todos me perguntam “E como foi?”, minha resposta é quase sempre a mesma — “Fantástico! A melhor experiência. Algo que realmente te muda e te faz vivo novamente…” — será que não haveria algo mais para contar? A resposta é: sim.

O “Retratos de um Caminho” foi escrito no calor do momento, pouco depois do retorno, com as informações exatas e um “enredo concreto” diante de mim. Era um resumo do que haviam sido meus últimos 6 meses e de como aquele plano foi realizado. Não chegou a ser mecânico, mas o básico estava ali: a motivação, a preparação, o início, os primeiros medos, as primeiras descobertas, as surpresas, o choro e a conclusão… Tudo escrito com emoção e com as primeiras imagens ainda vivas diante dos meus olhos.

Mas e as outras? E as demais sensações? E os tropeços? E os diálogos que reaparecem meses depois e que agora fazem sentido? E o que confessamos? E, talvez a parte mais importante, o que pensávamos encontrar e o que realmente encontramos nessa jornada? Será que foi apenas uma jornada, ou teremos outros capítulos? O fim era realmente o fim?

Esses próximos capítulos não são escritos com a energia latente, mas com a emoção certa, pensando friamente em cada um dos pontos. É uma série de palavras que me transporta de volta ao momento vivido e que agora relembro e eternizo, para que nunca se percam. É como se fosse um legado simbólico — uma pequena contribuição para que esses momentos vivam para sempre e que possam, talvez, motivar e auxiliar todos aqueles que precisem de uma mão, de um suporte, ou até mesmo de um lembrete de que não estão sozinhos em seus próprios caminhos.

Essas são as minhas lembranças, mas que, com certeza, fazem parte também das lembranças de muitas outras pessoas que cruzaram meus passos — ou que ainda cruzarão em um futuro indefinido…