E de repente aquela mesma voz de antes me acordou no meio da noite. Era um antigo amigo visitando, mas sem saber onde colocar as mãos ou como se portar com os pés. Era um antigo amigo desconfortável e eu sabia exatamente o porquê dessa estranheza…
2019: Mudou bastante o espaço da sua casa, hein?
Hoje: Sim. Na verdade, desde aquela vez, já é o quarto apartamento em que moro…
2019: Mas ainda sempre no primeiro andar.
Hoje: Ainda é a minha sina. Não sei por que, mas ainda estou preso nessa “maldição”.
2019: Bonita vista… E a vizinhança era a dos nossos sonhos, hein?
Hoje: Quando mudei para cá foi a primeira coisa que pensei. Os sonhos finalmente se tornando realidade. Finalmente provando que leva tempo, mas as coisas acontecem na nossa vida, né?
2019: Sempre foi assim.
Hoje: Sempre… Mas, o que te traz aqui?
2019: Com tantas coisas novas e conquistas por aí… Você se lembra?
Hoje: Eu não tenho como esquecer…
2019: Você lembra da luz da cabine? Aquela luz fria que parece não deixar ninguém dormir de verdade? Aquela luz que dizem que relaxa, mas apenas sufoca mais?
Hoje: Lembro. E lembro do barulho constante das turbinas. Mesmo com o fone, o barulho sempre se fazia presente. Parecia que o avião estava se esforçando. Tentando mostrar que até ele se movimentava melhor e eu não conseguiria mais…
2019: Onze horas de voo. O sono batendo. Não conseguindo dormir… E o joelho… O joelho naquele latejar rítmico. Cada turbulência era uma agulhada. Cada ajuste na coluna, outra agulhada. A pomada já não fazia efeito, os analgésicos tampouco. E a gente ali, preso, sem conseguir esticar a perna, sem conseguir fugir da realidade que descobrimos no dia anterior.
Hoje: “Acabou o futebol, man”. Já era. A dor era demais. Chegou a hora em que o corpo gritou. E aquela realidade batucava na cabeça a cada minuto. O mundo parecia ter encolhido e ficado do tamanho daquela poltrona apertada da econômica. Uma poltrona que esmagava ainda mais uma pessoa que não entendia como a vida tinha se tornado tão frágil em um lance de jogo.
2019: Mas foi ali, não foi? No meio do escuro, enquanto todos dormiam e você encarava os outros assentos, o mapa de voo na telinha e até o espaço das malas. Foi ali que você decidiu, não? Toda essa mudança de hoje… Foi ali onde você deu o “primeiro passo” — desculpe a ironia juvenil…
Hoje: Foi. Exatamente naquele dia. Talvez tenha sido uma loucura temporária, mas ela me deu o objetivo certo. Se eu não podia mais correr atrás de uma bola, eu iria caminhar atrás de um sentido e provar que dá para fazer. Se o joelho estava estourado e se tornara o meu ponto fraco, então ele seria o meu mestre. Foi uma promessa silenciosa feita para as angústias de sempre: “Se eu sair desse avião e conseguir colocar o pé no chão, eu vou fazer o Caminho de Compostela”.
2019: Mas a gente duvidou. Nas onze horas de voo, a gente confabulou mil motivos para desistir antes de começar. “É loucura”, “você vai se machucar mais”, “quem você quer impressionar?”. A gente brigou feio naquela madrugada acima do Atlântico.
Hoje: Brigamos como sempre e nos entendemos como nunca. Mas parece que depois dessa promessa vaga, as coisas começaram a se alinhar. Claro que teve a pandemia e toda aquela loucura, mas no final das contas, cumprir essa promessa e comemorar os quarenta anos parece ter sido uma das melhores escolhas da vida.
2019: E quando entraram os demais motivos?
Hoje: Quando fizeram sentido de verdade. Afinal, não chegamos aqui sozinhos. Não chegamos aqui do nada. Não estamos onde estamos porque “Deus quis”. Teve muita coisa por trás. Muita gente que ajudou. Muita gente que não ajudou, mas que mesmo assim, acabou ajudando… Loucura, né?
2019: E mesmo assim o joelho doeu?
Hoje: Doeu todos os dias até eu começar a preparação de verdade. Mas daí eu resolvi trucar a realidade. A dor do joelho, que antes era só castigo, virou combustível. Eu percebi que a pior imobilidade não era a da perna torcida, mas a da alma acomodada e de não enfrentar os tantos fantasmas que se materializavam em um monte de probabilidades. Mas com quarenta anos, é necessário olhar feio para tudo isso e bater no peito. Era hora de excomungar todo esse peso que nós cultivamos durante todas essas décadas.
2019: Lembra do filme?
Hoje: Pura ironia, né? Vimos um filme sobre o Caminho de Compostela justo no final de semana que estávamos de molho em casa porque o joelho estava doendo absurdamente.
2019: Foi ali que você fincou a data, não?
Hoje: A data específica não… Mas o momento. O protagonista fez para honrar o filho. Eu iria honrar a nossa vida.
2019: E agora, olhando para trás… valeu a pena a teimosia e toda essa loucura?
Hoje: Senta aqui. Abre o diário. Eu vou te contar como todas aquelas agonias se transformaram em 407 quilômetros de liberdade. Eu vou te mostrar que, no fim das contas, o joelho não nos impediu de nada. Ele foi apenas quem nos convidou para a jornada…
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