Essa foi uma das últimas conversas que tivemos. Éramos apenas esses novos adultos que pensavam demais e achavam que sabiam de tudo…
Quando despertei, você não estava na cama. O apartamento não era grande, então pude te ver fumando na porta da sua área. Era um sinal de que você não estava bem, porque só fumava depois do almoço. Então, algo te sufocava. Te perturbava. Te consumia por dentro — a ansiedade falava mais alto e você tragava aquele veneno logo pela manhã.
Eu te observei por bons minutos, tentando entender o que se passava e tentando me conectar com aquela rede de pensamentos que, mesmo invisível, era massiva e pesada. Talvez essa tenha sido a primeira constatação de que não sabíamos nada — nós sempre dizíamos que nos conhecíamos tão bem que não havia segredos nem mistérios, porque tínhamos o poder de nos conectar além do corpo. Pois é… estávamos errados.
Você terminou o cigarro e ficou ali ainda, olhando o que havia acontecido, perdida em pensamentos. Talvez perdida sobre qual solução escolher. Qual caminho tomar. Quais palavras usar… Eu nunca chegaria perto de descobrir.
Mesmo com a porta aberta, você falou comigo: “Sei que está acordado. E sim, eu estou fumando… Mas eu tenho uma explicação…”. Você sorriu, sem me olhar. A porta fechada, e eu te vendo a uns dez metros de distância.
“É uma teia de mentiras que eu não consigo mais controlar. Tudo isso é uma ilusão criada, que começa a desmoronar e já não consigo conter. Eu sou uma farsa, uma pecadora, uma irreparável. Brinquei de amor, brinquei de ódio. Brinquei com sentimentos, feri com ilusões. Arrisquei promessas e colhi lamentações. Eu tinha um plano perfeito, mas o clichê é real: planos perfeitos não existem…
Estou indo embora. Não me procure. Não me ligue. Se você me achar por algum motivo, finja que eu não existo. Eu não mereço sua atenção. Eu sou uma farsa. Uma daquelas tantas pessoas que não merecem o mínimo olhar.
Talvez eu te ame — mas nem isso posso provar. A única coisa que eu consigo pensar de verdade é que não quero morrer aqui, não quero ver minhas cinzas espalhadas por essas ruas, depois de tudo que destruí…
Adeus.”
Você acendeu outro cigarro, abriu a porta, pegou uma mala que eu nem havia notado — já estava pronta e largada no chão — e se foi. Para sempre. Eu fiquei ali, parado por alguns minutos, ouvindo seus passos sumirem no corredor, a porta bater, e tudo ir desaparecendo. Apenas a geladeira emitia som naquele momento, mas até ela se cansou — e tudo caiu em um silêncio mortal…
E agora, anos depois, eu fecho os olhos e tento ouvir com doçura aquelas últimas palavras. Ainda posso escutar você respirando como o vento entre os galhos deste bosque à minha frente — o mesmo que eu talvez quisesse te mostrar, e que você talvez fosse amar… ou talvez não, porque, no final, eu não sabia de tudo. Provavelmente, eu não sabia de nada.
A única coisa que sei hoje é que ainda sinto muito a sua falta. E que ainda vou continuar te procurando…
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