Queria outro lugar. Precisava de outro lugar. Um lugar novo, com tudo novo, reiniciando do zero — pela milésima vez — já que todos os seus planos falharam, como sempre…

Ele se pegou, mais de uma vez, orquestrando outra mudança. Pensando nas possibilidades e pesando os famosos prós e contras. Pensando novamente em excluir todo o seu passado para reiniciar sua jornada em uma terra nova e apta a lhe oferecer novos caminhos e novas histórias. Estava cansado das derrotas acumuladas e dos muitos caminhos iguais que via em seus dias. Estava cansado daquela falsa solidão, daquele falso glamour e da falsa vida que levava ali já há tempo demais. Tudo parecia velho e cansado. Tudo parecia mais do mesmo — sendo esse “mesmo” algo enjoativo e, agora, até repugnante.

Novamente, ele perdeu o encanto de buscar os brilhos perdidos. Parou de orar e de agradecer pelo destino. Parou de sorrir quando o acaso lhe brindava com algo ainda desconhecido, mesmo já conhecendo toda aquela epopeia de cor e salteado. As ruas já fediam ao azedo passado; o lixo parecia acumular; os barulhos daquela vibração toda feriam seus ouvidos. E, mesmo quando o silêncio reinava, era o momento mais inquietante para ele, pois já queria gritar para romper alguma coisa de vez.

E agora pensava nos custos de tudo: no custo de viver, no custo de mudar, no custo de planejar e no custo de programar. Passava o dia entre contas e rabiscos, entre possibilidades e anseios, entre números e planilhas. Era o único momento em que sorria de verdade: quando sonhava com sua nova vida e visualizava sua alegria fora daquela cidade. Sorria para sua nova fuga. Sorria para sua nova ilusão.

E não era nada além de ilusão, pura e descarada, porque ele sabia que agora era tarde demais para mudar. Ficaria preso para sempre naquelas paredes invisíveis, pois já fazia parte daquele lodo azedo que tanto lhe repugnava…