Tentava disfarçar a marca no pescoço com uma maquiagem barata. Sorria sozinha, lembrando das loucuras de noites de verão das quais jamais se orgulharia…
Recordava-se de deslizar por conversas interrompidas, rostos suados e toques involuntários. Ria do bafo quente no pescoço, mas gostava mesmo era do suor compartilhado sob o calor sufocante. Era sempre no intervalo entre os primeiros drinques e o fechar da porta de um apartamento desconhecido — já com o sol alto no céu límpido — que a culpa se insinuava. Voltando para casa, cruzava com pessoas vestidas para o dia, enquanto ainda trajava a roupa da noite, manchada e borrada de fluidos sem nome. Cumprimentava vizinhas com um misto de vergonha e audácia, antes de afundar de volta na rotina.
Dizia a si mesma que gostava daquela vida, mas não sabia como deter o ímpeto voraz: tesão, oportunidade, inconsequência, rostos borrados na memória, diluídos em álcool cada vez mais forte.
Hoje, tudo cobra seu preço. Se pudesse voltar no tempo, não seria hipócrita dizendo que não faria nada daquilo. Faria, sim. Mas gostaria de ter uma conversa com a garota que foi, para explicar o que aconteceria nos meses de outono e inverno que viriam potentes, em questão de meses — ou dias. Diria que beijos ardentes são bons, que sexo sem compromisso talvez seja necessário e que a culpa, às vezes, evapora. Mas alertaria: o acúmulo de momentos fúteis ocupa um espaço estranho e pesado no futuro. A cada semana, é preciso mais para sentir o mesmo — até que venha o esquecimento e, com ele, riscos que não se calculam.
Hoje, chora por todo o sufoco causado. Hoje, tenta reprimir todas aquelas vontades. Hoje, encara um banheiro quebrado e um coração partido nas mãos. Hoje, só queria apagar todas aquelas lembranças que já esqueceu.
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