Havia um papel amassado no canto da gaveta. Ele não estava jogado, mas guardado com o descuido proposital de quem queria lembrar…
Desamassando aquele segredo, encontravam-se aquelas promessas que se fazem quando a pele ainda pulsa e o tempo parece obediente. Vistas com a razão do agora, não passavam de rabiscos tortos, infundados pela umidade daquela situação. Mesmo assim, algo vibrava ali. Talvez o eco das noites em claro, da ansiedade dos planos traçados, das mirabolantes ideias de um mundo que logo estaria diante dos olhos. E da eternidade juntos — até que a morte os separasse…
O perfume ainda estava lá. Preso em alguma fibra de tecido, talvez, ou grudado na memória como poeira fina. Ele não passava despercebido. Era discreto, mas cruel. Tinha aquela permanência dos amores que sabem que acabaram — mas recusam o desaparecimento.
As ligações perdidas somavam vinte e sete. O número, simbólico por si só, não era importante — mas sim o silêncio que tocava. Não havia retorno. Só aquela insistência mecânica do telefone que brilha e cala, brilha e cala… Como se houvesse uma dança entre o querer dizer e o não poder ouvir. Talvez todas tenham sido feitas no impulso da ausência, da culpa ou da esperança. Mas, com ou sem esperança, nada se ouviu melhor que o silêncio das chamadas perdidas.
E assim, entre um papel esquecido, um perfume que não se vai e chamadas que jamais foram ouvidas, o dia se acomodava. Entrelaçava-se com a angústia e preparava o jantar com a solidão atualizando as novas e velhas situações imaginadas…
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