Existe um momento em que a vida pede uma passagem diferente. Longe de alterar os rumos do vento, de cruzar caminhos diferentes ou alterar valores que achávamos serem perpétuos…

Tem horas em que a vida pede saudades. Saudades dos gostos antigos que há tempos não experimentamos. Saudades de ter um combustível que reacenda algumas chamas esquecidas. Saudade de ter o que relembrar e suspirar. Pura e simples saudade do passado…

Como relembrar o saboroso gosto do novo e até do medo que temos no seu início. Daquele frio na barriga por não saber o que fazer para se adaptar. Saudades de sentir o suor nas mãos quando uma oportunidade começa a iluminar o horizonte. Saudades de ficarmos com a boca aberta em pura expressão de perplexidade. Saudade de sentir-se infantil e inexperiente, de não saber onde colocar as mãos e até de engasgar após um convite inocente para o passeio vespertino com aquela menina que você jurava ser a mais bela de todas. Saudades de um porre alegre e de uma ressaca mortífera, do brinde mais bem-feito do mundo até o último gole desnecessário…

Mas a vida também pede saudades do que não gostamos de lembrar…

Das noites em claro na angústia de não saber o que acontece. De relembrar os passos catando cacos que não existiam. Saudades daqueles que já foram e não estão mais perto de nós. Relembrar as lágrimas que não secamos e até dos momentos em que largamos algumas pessoas por conta do orgulho…

Tudo tem seu valor e peso para que a vida peça nova chance de viver novamente. Afinal, ela faz questão de lembrar que, graças a esses tantos tropeços e alegrias, é que desenhamos nossas linhas no presente. E, antes que as linhas se apaguem para sempre, ela pede que retoquemos essas marcas. A vida precisa sonhar novamente e, às vezes, para a vida poder sonhar, é preciso ficar sem dormir.

Cultive suas memórias, deixe os dias serem cinza de vez em quando e se machuque, por um momento, pelo beijo que você nunca mais sentiu. Não se esqueça daquela noite no carro, daquela mensagem perdida que você enviou e nem do seu porre homérico na festa da faculdade. Relembre os corações que você ajudou a quebrar e relembre quantas vezes já sentiu o chão faltar. Deixe as memórias vivas o suficiente para te fazer sentir uma aflição pesada de “já vivi demais e estou no mesmo lugar”, pois este é o resultado esperado, porque tudo não passa de uma ilusão.

Ilusão essa que faz pensar que seu passado está mais vivo que nunca, que dita até hoje seus passos e “cobra caro” todos os erros por conta das escolhas feitas quando ele era o presente.

Não é nada disso!

O passado serve para vermos o quanto já vivemos e sobrevivemos aos seus tropeços. Serve para relembrarmos gostos e podermos falar “Já conheço o suficiente disso”, sem medo de sermos egoístas. O passado serve como um dicionário que buscamos quando a memória falha. O passado é nosso pai eterno, pois nossas marcas estão lá e prontas para serem revistas.

Por isso a vida cobra um período de saudades e é por isso que ela retoma sempre ao mesmo ponto: para que possamos rir e chorar do que já foi verdade e presente, mas que hoje só serve como combustível para nossos próximos passeios e futuras decisões…