O orvalho parecia não ter pressa naquela manhã curvada, sacudindo-se e passando de borda a borda sem hesitar, permanecendo sem evaporar…

Cada gota era um espelho em miniatura, cheio de um céu que ainda não sabia se seria claro ou traria as tormentas das verdades que assombravam os passantes. Os cravos, no predicado daquela paisagem, despontavam com uma beleza quase ofensiva e inevitável. Nasceram para um ataque quase frontal — mas com um perfume que transformava a arte em perigosa atração final.

Havia uma leve pontada na nuca ressecada, como uma memória querendo retornar por um nervo distraído. Não era dor — mas um lembrete de um limite que fora ignorado na noite anterior — e nas dezenas de noites anteriores. Agora, aquele limite tomava as rédeas da razão e expandia seu domínio, instalando-se praticamente em todos os fins de tarde.

No famoso fim de tarde em que versos vagos começavam a escorrer pelas paredes do pensamento, havia um encontro orquestrado por uma divindade irônica. O orvalho do início ainda teimava em aparecer — um pouco mais tímido, é verdade — porém ainda pairando nas bordas das folhas que tomavam sombra naqueles dias. A pontada, que cismava em acordar justo na hora mais relaxada, e os versos, que fechavam aquela remexida, apenas queriam um impulso para continuar por ali…