A casa vazia de agora não contrasta com o frenesi de horas atrás. A porta aberta, a saída antes do almoço e o aviso de adeus…
Quando saí, sabia que seria a última vez que te veria, já estava decidido, e você suspeitava que também fosse a última vez. A última vez que te olharia nos olhos, te beijaria e não me despediria, porque eu sorri por isso. Não por alegria, mas por entender que não havia mais razão. Todas as minhas confusões sedariam outro momento solitário e vazio de sentido…
O som da sua voz hoje nem ecoa mais aqui, mas sei que voltará para me assombrar. O grande problema foi a perda de significado, de razões explicadas, mas não discutidas, e a sempre desconfiança de que você nunca estava 100% aqui. Era como se uma parte vivesse aqui, mas houvesse outra em sintonia diferente, fora, vagando por um desconhecido que eu nunca pudesse alcançar.
Talvez fosse tudo coisa da minha cabeça, dos meus devaneios em forma de brincadeira e das minhas frustrações postas em ironias soltas. Talvez…
Não sei se você levou algo desse tempo ou daqui, não senti falta de nada e tudo estava em seu lugar quando voltei. Respirei fundo ao ver a casa vazia, o som dos carros passando ao lado e a certeza de que ninguém me ouvia. Olhei para o celular e sorri pela falta de mensagem, pela ausência de informação. Liguei a TV e me tornei impessoal novamente. Flutuei em programações dispersas e fui lentamente me despindo de você.
Engraçado que seu cheiro não estava contigo na última noite e nem ficou aqui como o último a sair, como foi nas outras vezes. Talvez ele soubesse do fim e não quis ser o último a ficar com a poeira do chão, que retirei junto aos cabelos que ficaram no caminho. O que veio contigo foi apenas o sabor de álcool vespertino, o combustível encorajador de sempre, mas que se evaporou ainda na madrugada. No outro dia, tentei buscar algo concreto do nosso tempo e nada encontrei. Sem fotos, sem cartas, apenas as conversas longas de um aplicativo moderno.
Tenho certeza de que você esteve aqui, mas hoje sua lembrança é algo borrado no canto do sofá.
No futuro sei que vou relembrar agosto, mas setembro me fez correr para outros vales perdidos…
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