“E o que você tem para contar?” – não deveria ser uma pergunta. Deveria ser uma obrigatoriedade. Deveria ser algo de pronto acesso, de interpretação clara e de fácil explicação…
O suor brota no rosto. O sorriso amarelo se entrega ao tentar transparecer uma tranquilidade que há tempos já não vive em mim. Há aquela indecisão do que fazer com as mãos e a voz falha. Em segundos. Nesse meio tempo – entre o que existe de verdade e o que devemos contar antes para ambientar – um milhão de imagens e de histórias brotam na mente.
Do início de tudo, passando por imagens que foram pensadas, diálogos que existiram e que foram sonhados, depois repensados. É uma completa confusão de algo que não dá para definir com outras palavras. E daí você começa a tentar explicar…
Começa por temer outra reação negativa. Começa por tentar achar um caminho para seguir, por tentar criar – da completa escuridão da dúvida – um lugar claro de presente.
E você falha. Falha por conta da confusão acima descrita, que é só a ponta do iceberg mental. Você cria situações que nega depois, que se tornam perecíveis com os verbos usados e com a postura inadequada. Falha e tenta consertar tudo novamente. Tenta impor um novo ritmo, um novo início e uma nova explicação. Era para ser tudo fácil, mas não é.
“Você está se sentindo bem?”. Claro que sim. A confusão leva a uma falsa euforia, o mundo está errado, mas você está bem. Estou bem, cavando algo cuja profundidade não conheço e sem saber em que rumo deveria utilizar minhas forças. É complicado, mas continuo falando… Continuo tentando focar na primeira resposta e esqueço que a confusão já criou tantas outras perguntas que ficaram pendentes no ar de tensão.
Respiro rapidamente e a vida coloca o eco da minha própria voz no recinto. Depois disso, me vejo perdido. Perdido por não saber mais como continuar, como contar a partir desse meu caminho e dessa minha retórica. Perdido por não saber como é o gosto que tento descrever, como é o beijo que tento sonhar e como é o toque leve que busco na escuridão desconhecida.
“Mas do que você tem medo?”. Medo deveria ser uma palavra proibida em muitos vocabulários. Me ajeito na cadeira, porque ela parece enorme e desconfortável com meu suor. Velha demais para que eu conte minha história. Estranha demais, pois eu não deveria estar ali… Mas estou. Estou porque vou mentir e dizer que não tenho medo de nada. “Da morte”, mas dou uma risada tão irônica que isso não passa de um estágio delirante. “De aranhas e escorpiões gigantes”, tento novamente, mas a ironia tenta me esconder do olhar calmo e tranquilo.
E finalmente nego meus medos. Mas eu tenho…
Medo de esquecer como foi a noite em que a conheci. Medo de me esquecer da estrada que dirigi pensando nas palavras ditas, no beijo trocado e no lindo amanhecer desde que a deixei na sala da casa onde nunca mais voltei. Tenho medo de esquecer a sua voz, o seu rumo em minha vida e o seu sorriso amanhecido. Tenho medo de me perder em tantas músicas e tantas frases e me ver na eterna neblina viva. Eu tenho medo. Todo mundo tem. Mas ninguém me entenderia…
“Está tudo bem…”. Termino porque não adianta mais. Não adianta ficar ali desconfortável, contando minha história para alguém com um diploma e sem noção do tamanho do meu chão. Ignoro a cadeira, as dúvidas boiam em minha face, mas não importa. Meus medos vão me guiar, vou tentar revivê-los e deixar todas as lembranças se preservarem em um lugar único, vivendo diariamente tudo aquilo. Como uma rotina monótona e empoeirada.
É mais fácil o caminho doloroso do que uma análise malfeita de frases prontas e ditados inteligentes. É mais fácil acordar com a angústia de brinde e ir dormir com a solidão do silêncio. É mais fácil fazer a vida esperar um possível relento e reviver na memória do álcool e da euforia ilícita todos aqueles sabores novamente. E revivo cada um dos mais importantes… Minhas pernas doem de andar tanto em círculos e fazer tantas dobras. Minhas pernas cansam de retomar o mesmo ritmo de antes e buscar a beleza da retórica. Meus braços se cansaram de abraçar o vento que me balança, de buscar sua direção em meus sonhos e de sonhar com o entrelaço dos seus dedos novamente em mim.
Lembro a risada da primeira vez, lembro a viagem tão simples que fizemos. Lembro o quadro vivo que pintamos e a doce ilusão de uma vida qualquer. Ainda lembro o perfume do banho fresco, do vestido que caiu tão bem no calor e de quando você disse que não me conhecia mais enquanto chorava, incrédula com o nosso fim.
Disso eu nunca vou esquecer…
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