Ela se deita, tentando voltar a sonhar com todo o brilho que lhe cabe na lembrança: das danças suaves e do lindo toque de pétala que treinou e cuidou tanto tempo para ter…
Ela guarda, em uma bolsinha pequena perto do peito, todas as promessas que alguém lhe fez, sonhando com os desembaraços e finais que podem vir a acontecer. Brinca com as falas que irá dizer e verifica suas reações, não tentando ser tão mecânica, mas ainda assim ter a leveza da surpresa que umedece seu olhar. O espelho é seu confessor, seu melhor amigo petrificado e sem fala. Não se importa com as folhas do calendário caindo, pois imagina que tudo lá fora está sendo montado exclusivamente para seu perfeito final e felicidade eterna…
Ele sempre passava ao fim da tarde. Trazia consigo apenas seu violão gasto dos mesmos acordes e fitava, por alguns minutos, o treino em frente ao espelho da moça delicada de vestido cor de esperança. Imaginava ele qual era o sonho da garota e tentava ser notado sem fazer nenhum barulho, para que ajudasse no seu triunfo.
Dia desses que nenhum dos dois saberia dizer qual, um estopim se quebrou e seus olhos se cruzaram pelo minuto necessário. Ele não conseguiu sorrir e apenas acenou, tímido e vermelho como deveria, e ela, descoberta do seu treinamento, apenas certificou-se de que nada estava fora do lugar que havia imaginado. Foi o suficiente para ele lhe convidar para um passeio na praça seguinte, para desfrutar de tudo o que ela imaginava.
Ele tinha as perguntas que ela nunca havia treinado, e suas respostas foram tão sinceras que até se perdeu no enredo que havia planejado.
Andaram até a lua iniciar sua descida, cansada da noite de trabalho. Ele a deixou na sua porta, virando-se para o seu rosto brilhante de surpresa, confessando que sua respiração acelerada era fruto da maior alegria que já vivera…
Nos dias seguintes, ela abandonou o espelho para lhe esperar na varanda, e ele testou, com gosto e sucesso, outros acordes para criar uma nova canção que havia nascido da explosão do dia anterior…
Conte-me algo aqui...