Caminhar pelas ruas de tantas histórias e lembranças não ajuda, pois são como uma máquina do tempo que me leva para anos atrás.
Sou nascido e crescido em Santos. Saí das suas ruas, divididas por canais, com pouco menos de 18 anos, mas nunca a abandonei de fato. Seja pelo sotaque e gírias conhecidas, seja pelo jeito de falar ou até de olhar para uma cidade qualquer (quem é santista sempre tenta criar um paralelo de divisão de qualquer cidade com Santos, é inevitável) e comparar prós e contras da cidade. Mais do que um texto apaixonado pela cidade, o papo aqui é a nostalgia básica que corre nas veias quando visitamos os locais que eram rotineiros.
Não consigo pensar em Santos – e na vida de lá – sem pensar na quantidade de ruas que caminhei ou nos caminhos feitos. Sempre prefiro ir a pé aos bares e casas de amigos, para refazer esses caminhos e ver “a evolução da cidade”, esbofeteando minha cara com a realidade de que já estou velho.
É dolorido, ao mesmo tempo que é normal, mas depois fica incrivelmente bizarro. Perto de onde morei a maior parte da minha vida, já quase não existem casas. Foram derrubadas e os terrenos separados ou agrupados para dar lugar a prédios gigantescos e fora da realidade de vinte anos atrás. Vinte anos é um tempo respeitável, mas não para um choque de mudança deste tamanho. Lembro da casa que havia um cachorro galgo, lembro da vizinha que fazia bolos para fora e até da casa em frente ao meu prédio que tinha um “mini lago”. O quanto aquilo era “divertido” (e até surreal) ao ver as carpas ali vivendo tranquilas.
Tudo isso foi derrubado. Todas as lembranças esquecidas para dar lugar a prédios bizarramente gigantes e de valores brutalmente exorbitantes.
Gosto ainda de refazer os mesmos caminhos quando ia para a escola. Passar pela padaria, cruzar o canal 4 pelo mesmo local e cortar o caminho pensando que estava atrasado e precisava acelerar o passo.
Já faz um tempo, mas em um desses dias que estava por lá, fui rever a saída do colégio. Fiquei do outro lado da rua, tomando um mate e vendo o movimento da molecada. Muita coisa havia mudado. Antes, a saída era o momento para últimas conversas, olhares “pseudo-apaixonados” que se cruzavam, as zoeiras de um grupo para o outro. Havia planos para um futebol ou videogame com os amigos na parte da tarde. Muitos iam embora a pé em grupo, se separando conforme chegavam aos seus apartamentos.
Agora eles pouco se falam. Existem alguns grupos, mas eles mostram um ao outro o celular. As meninas são iguais. Talvez respondam e riam de indiretas nos seus “Zaps” ou “Insta”, mas pouco interagem fisicamente com o pessoal ali. Poucos vão a pé agora, e mesmo os que vão, vão apressados, em silêncio e solitários. Na verdade, a fila de carros é imensa, e os filhos esperam o carro, entram e continuam com a cara na tela, como estavam há poucos minutos.
Apesar dessa diferença toda, o sentimento ainda é o mesmo. Muitos ali nem sonham para onde vão, quais amizades ficarão para sempre ou quais serão separadas com muitas cidades e destinos perversos… Não aparentam essa preocupação, por simplesmente isso não existir na cabeça deles, ou por saberem que estarão sempre “conectados” com as pessoas. Acho que eles pouco pensam no futuro. Isso ainda é uma bola nebulosa que fazem de conta que planejam, mas sem saber das “maldades” que a vida separa para cada um deles.
Voltei do transe quando o tio do mate me perguntou: “Relembrando da vida?”
Não tinha como mentir e expliquei que estudei ali e o quanto as coisas mudaram. Ele não discordou, apenas balançou a cabeça, ficou olhando para o colégio e disse: “Eu lembro quando construíram isso daí. A casa do lado era de uns conhecidos do meu pai e eu era vidrado por vir aqui brincar com os filhos deles! Dá saudade, viu? Mas lembrar como era, pensar nessa vida de antes e da falta de problema na nossa vida, acalma o coração. E, nessa crise que o mundo tá hoje, é bom fazer esse exercício sempre, né? O coração da gente precisa de alegria, mesmo que seja da saudade e sabendo que nada vai voltar ao que era, né, rapaz?”
Eu sorri e concordei. Era uma boa receita para os próximos passos. Paguei o mate, ganhei o chorinho clássico e saí prometendo que faria esse “exercício” de lembrar e alegrar o coração sempre.
Ele sorriu, já olhando em outra direção, talvez perdido em outras lembranças, e emendou: “Faça sim… De tristeza, pelo menos, tu não morre!”
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