Em cada página do diário, havia uma seção chamada “O que mais lembrarei”. Era a parte que mais me encantou escrever — porque cada etapa teve uma lembrança marcante, seja muito boa, seja parte do desafio que foram os tantos passos dados…

Reler essas páginas hoje é como abrir uma janela para aqueles dias: as imagens saltam com uma força que ainda me surpreende…

Antes de chegar a Porto, o Caminho Português te leva por bosques que parecem estar sendo reflorestados — áreas enormes, protegidas, com marcas de caminhão por vários e vários quilômetros. Nos primeiros dias, eu praticamente não cruzava com ninguém, apenas cruzava com pessoas indo na direção contrária (sentido Fátima) e mesmo assim os via nas estradas, porque pouquíssima gente vai pelo “caminho real”. Logo, era o incrível e rústico som da caminhada — o som do bastão no chão, os meus passos e o farfalhar das folhas movidas por um vento que parecia sussurrar algo. Era como se o silêncio se personificasse e fosse reconfortante. Quase palpável. Quase companheiro. Nesses momentos, eu não precisava de nada além daquilo — e essa sensação, até hoje, não consigo descrever com palavras que façam jus ao que era.

Outros tantos dias, escrevi sobre a chuva. Iniciei o Caminho com uma chuva “tranquila e constante” em Coimbra — quase uma bênção discreta para quem começava uma jornada nova. Depois veio a chuva torrencial antes de Porto, que me ensinou que o corpo aguenta mais do que a mente imagina. E então a pior de todas, antes de Padrón — uma chuva absurda, que parecia vir de todos os lados ao mesmo tempo, encharcando cada centímetro possível. Talvez, como foi no dia anterior à chegada a Santiago de Compostela, tenha sido a “lavada de alma” que eu tanto precisava, antes de completar o Caminho. Mas, com o passar dos dias, fui “diferenciando” as chuvas e tentando achar graça da situação. Aprendi a celebrar o alívio de chegar ao albergue, arrancar a roupa molhada e torcer — muito — para que o tênis secasse até o dia seguinte. Cada chuva tinha um nome, uma emoção, uma lição e até mesmo uma razão.

Mas, com certeza, a melhor e mais forte das lembranças são as dos dias em que acompanhei o “mundo acordando” — quando os primeiros momentos de sol surgem no horizonte. Era tão perceptível e mágico que decidi, em vários dias, começar a etapa em uma escuridão absoluta — apenas para vivenciar aquele momento. Você caminha e não ouve NADA. Apenas o barulho do bastão e dos seus passos no solo — terra, pedra, asfalto. E então surge um brilho, mesmo que fraco, no horizonte. E em fração de segundos, como se alguém tivesse acionado um interruptor invisível, os animais começam a despertar: pássaros, insetos, vacas, galos… Era como um recado da natureza de que o dia começava outra vez — e que era hora de enfrentar aquela jornada com as energias renovadas. Esse espetáculo do acaso virou o meu ritual sagrado. O combustível que me fazia levantar nas altas madrugadas do Caminho e vivenciar algo que não conseguimos viver na cidade. Estamos, infelizmente, longe de conseguir nos conectar com a natureza dessa forma. Graças ao Caminho, consegui ter esse privilégio.

Claro que também há espaço para as surpresas que foram “presentes” do Caminho. A conversa em Grijó com Pete — um irlandês que, sem saber, me deu respostas que eu carregava há anos sobre uma empresa onde fiquei apenas três meses, para descobrir que ela financiava grupos terrorista e tudo mais. Das novas amizades com a Rubi, Jhon, Stephen, Max, Kristyna, Alessandro e Luís — cada um chegando no momento exato em que eu precisava. De quando finalmente compreendi que não existem “acasos” ou “coincidências” no Caminho, porque tudo acontece com base naquilo que você precisa viver, ver e entender. E cada uma dessas pessoas trouxe consigo um Caminho — e por que não um livro — de pontos, de angústias, de alegrias, de respostas, de carinho, de companheirismo, de ensinamentos, de alívio e de tantas outras surpresas e descobertas… Eu sou péssimo para nomes, mas esses eu guardarei para sempre, porque hoje consigo compreender exatamente o quanto eles contribuíram, mesmo que “invisivelmente”, para o meu novo Caminho.

E também teve o dia em Ponte de Lima. Tomamos um monte de cervejas, compartilhamos situações, medos, conceitos e revelações. Exatamente essas palavras estão escritas no diário: “Sobre nossas filosofias alcoólicas acerca da aceitação e o quanto agora entendemos o livramento poderoso que o ‘universo’ nos dá quando retira pessoas que antes eram tão importantes em nossa vida e hoje vemos o quão nocivas para nós eram…” Pode parecer pouco e tolo, mas você já parou para pensar o quanto de energia, alegria e até saúde a gente gasta com esse tipo de situação? E sim — não é preciso fazer um Caminho para entender isso. Mas foi engraçado o tipo de assunto que compartilhamos entre um monte de cervejas, com pessoas que conhecemos há dois dias, completamente confortáveis e “amigos” para nos abrirmos sobre um monte de situações vividas.

Esse tipo de sentimento — como se fosse uma pureza em forma de “amizade”, sem ego, sem máscaras, sem histórico — eu também guardarei para sempre. Porque foi ali, naquelas conversas improváveis, naqueles dias de chuva, naqueles silêncios e naqueles amanheceres mágicos e reconfortantes, que eu entendi o que realmente importa carregar na mochila da vida — e o quanto tirar dessa mesma mochila, porque o pacote já havia apodrecido demais.

E isso, nunca esquecerei.