Ainda hoje não consigo descrever como foi a sensação de chegar finalmente à praça da Catedral de Santiago de Compostela. Por meses imaginava aquele momento, mas nada se comparava ao sentimento real…
Durante os meses de preparação, imaginava como seria a sensação de concluir o Caminho. Imaginava que meu joelho aguentaria e seria a melhor recompensa possível. Outras vezes via vídeos da galera se jogando no chão, atirando os bastões para o alto, pulando, gritando, chorando… E eu ficava com aquele pensamento básico de: “O que será que passa nessa hora?”, tentando entender o que aconteceria comigo, quando fosse a minha vez.
E obviamente que não adianta tentar entender, planejar e “se programar” para fazer algo. Você não irá cumprir essa parte, porque simplesmente o Caminho te transformou naqueles tantos passos dados durante suas etapas. O Caminho te mostrou outras formas de pensar, de comemorar, de agir, de pensar… E simplesmente, aquela pessoa que havia planejado se jogar ao chão, praticamente não existe ali naquele momento – se é que ela existe verdadeiramente em você. Você acaba mudando naqueles tantos dias, que quem chegou à Santiago de Compostela é uma nova versão de si mesmo…
E sim, disse “chegar” não “concluir”, porque quando você chega em Santiago de Compostela é o seu novo início. Um novo capítulo, uma nova forma de pensar, de agir, de ver o mundo, de entender o que acontece ao seu redor… Uma nova forma de celebrar, de conquistar e de compreender os demais.
Como está escrito no final do capítulo anterior, ali marca o início de mudanças e de uma nova vida, onde o peso morto de inseguranças e de alguns fantasmas que atormentavam nossa vida anteriormente, se foram e finalmente podemos enxergar que existe uma nova vida pela frente – mais leve, mais clara, mais alegre talvez…
E até hoje eu não sei muito bem o que aconteceram naquelas primeiras horas da chegada. Eu lembro que fui deixar a mochila na pousada, troquei de roupa porque estava molhado da chuva que caiu durante a manhã. Fui pegar a minha “Compostela” – que é o certificado de conclusão do Caminho e fiquei ali na praça da catedral, tentando entender, gravando vídeos, tirando foto, olhando as pessoas e ainda me acostumando com tanta coisa em tão pouco tempo…
Pouco a pouco fui vendo os amigos concluindo o Caminho também. Encontrei o Luís, a Kristyna e o Alessandro. Brindamos a conclusão de mais uma etapa, rimos de situações, nos conhecemos um pouco mais e, no final da noite, não nos despedimos, mesmo que fosse a última vez que estivéssemos juntos por ali. O Alessandro ia embora logo na outra manhã, o Luís no meio do dia e eu no final do próximo dia… E mesmo assim não nos despedimos.
Talvez porque essa realidade ainda chocava, mas mais provavelmente porque era mais uma conclusão e lição que o Caminho nos deixava. Agora já entendemos o início dessa nova vida e deveríamos ter a confiança que o Caminho nos traria o que precisássemos e, se fosse necessário, o Caminho nos uniria de uma maneira ou de outra, sem coincidências, sem forçar situações, sem prejuízos. Apenas a necessidade de união para que nos ajudássemos e compartilhássemos novas visões e experiências de nossas vidas.
Naquela noite voltei à Pousada e concluí meu diário do Caminho. Feliz pelos ensinamentos, feliz pelas alegrias proporcionadas, feliz por todas as respostas que ganhei e muito mais feliz por entender que era o Caminho – o quão esclarecedor, libertador e curador aqueles tantos quilômetros foram para a minha vida. Feliz por ver um monte de defeitos que tinha, um monte de “conquistas” que já havia conseguido e quantas vitórias e merecimentos eu já havia acumulado nos 40 anos de vida.
Nessa última página de relato eu voltei à primeira e consegui ver o quanto havia mudado nos simples 14 dias que separaram o Matheus saindo de Coimbra, do Matheus iniciando o Caminho em Compostela. Não creio que tenha sido o choro libertador do último dia. Não creio que tenha sido o choque de realidade. Não creio que tenha sido as grandes conversas que compartilhei durante os dias…
Mas foi tudo isso. Eu iniciei com a aflição do fracasso e terminei com a certeza da vida. Eu iniciei com quilos de remédio, curativos e equipamentos para o meu joelho e terminei pensando que foram peso extra que levei. Eu iniciei com medo do desconhecido e terminei com uma paz tão grande de ver o quanto eu sou vencedor e merecedor dos meus poucos predicados e muitos adjetivos…
E aquela noite lembro de dormir com um sorriso no rosto, não apenas de alegria por entender tudo isso, mas mais ainda por iniciar meu novo Caminho de coração leve…
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