“Traga-me o horizonte pela manhã, pois quero ver o que conseguirei ter com ele…”. Foi assim que a carta, amassada e esquecida pelo tempo, terminava em seu rodapé…
Iniciava tristonha e abstraindo toda uma dor que não cabia em descrições ou introduções. Ganhou forma no enredo, tomando um formato perigoso e romântico, sugerindo que toda uma vida se baseava na descoberta do amor, e apenas por ele.
Ora tinha suspiros alegres, que transbordavam em sonhos impossíveis, ora a inocência era varrida para longe, graças a uma realidade que cicatrizava cada vez mais as derrotas e desavisos que a vida produzia.
O amor parecia ter abandonado a razão há algum tempo, com a solidão personificada em cada palavra pressionada no papel. A esperança foi a última a tomar partido e continuou até o fim, assinando esta tormenta lamentosa, sugerindo que, lá longe, no horizonte sempre distante, estava o caminho sonhado.
A jornada até esse horizonte se perde em incógnitas tão evasivas quanto a abstração que inicia a carta…
Se houve um fim ou ainda está em construção? Se o autor teve sucesso ou ainda coleciona seus tropeços e fraquezas? Que bagagem precisou ser queimada? Ele encontrou o que desejava no horizonte sonhado?
Esses são assuntos desconhecidos, pois não existiram novas correspondências ou cartas amassadas.
Talvez ele nunca tenha mirado para o fim e tenha esquecido suas fraquezas iniciais, para destilar ao infinito suas conquistas e novos endereços – onde houvesse mais pessoas para contar a odisseia estrelada por ele mesmo.
Conte-me algo aqui...