Ela sempre chegava cabisbaixa e procurava uma mesa escondida de todo mundo. Sempre rente ao banheiro feminino, mesmo ela sendo uma das poucas meninas dali…
Sentava-se virada para a rua, os cabelos lhe cobrindo o rosto e o caderno dobrado demais para ficar certo para ser usado. Ela tinha seu capricho em deixar a folha aberta na posição que mais gostava e iniciava sua narrativa. Os olhos pairavam no ar, parecendo buscar palavras ou sinônimos. Quanto mais as folhas se preenchiam, algo próximo de um sorriso se pintava nos lábios. Algumas páginas depois, o mesmo ritual. Ninguém sabia o seu nome, mas ela aparecia sempre nas tardes chuvosas daquela cidade. O que lhe rendeu o apelido de “Rainha da Chuva” entre os clientes habituais dali.
Era um daqueles lugares que todos se respeitam e ninguém jamais ousou em perguntar o que a Rainha fazia. Era gostoso vê-la ali com seu passatempo e seu caderno tão machucado quanto ela. Um dia de temporal, um viajante, daqueles que podemos chamar de excêntrico, sentou-se na mesma mesa da Rainha e com um sorriso lhe perguntou o que escrevia tão compenetrada. Os olhos não desviaram, a fala não saiu até o último ponto ser perfeitamente inserido no final da linha derradeira. Parecia ter um alívio, mas o ar estava tenso pois nunca haviam ouvido a voz dela.
Quase rouca, mas com força o suficiente, ela respondeu: “Escrevo todas as vezes a mesma história, no mesmo enredo, no mesmo tom e com o mesmo fim. Não ouso escrever diferenças, sendo que apenas reescrevo o que aconteceu. Trago aqui a mesma angústia de menina que teve seu sonho morto, seu coração despedaçado. Conto a história de você, senhor, que antes de virar este viajante do mundo, me prometeu um mundo de magia e partiu, numa tarde de chuva, não se importando com o meu fim. Com a minha vida. Com um mundo meu que acabei transformando para seu. Você, viajante, nem se lembra mais da menina que apenas lhe sorria e trazia um cabelo louro de mel nas noites de verão. Escrevo para não me esquecer, pois sabia que você voltaria e te presentearia com a minha tragédia, com a sua culpa descarada, mas que tive a ousadia de transformar em uma epopeia. Uma epopeia única feita por aquela que certa vez você chamou de Amor.”
Conte-me algo aqui...