Existiu um tempo alegre. Um tempo simples e ingênuo, que se completava apenas pela simplicidade de existir…

Como uma brincadeira tonta, um passatempo simples que não tinha nenhuma outra intenção senão simplesmente ver o tempo passar.

Existiu um tempo em que olhar para o céu com um carro em movimento era engraçado, pois as nuvens faziam suas obras em formato de desenho e a mente viajava, tanto quanto o carro, associando meros aglomerados de algodão – o que se pensava ser naquele tempo – a algo que já havia sido registrado antes pelos olhos e guardado em algum lugar obscuro. De desenhos, passando por animais e personagens reais e fictícios. Mais uma vez, era algo sem motivo aparente, apenas um leve embalar de uma mente que funcionava tão frenética quanto poderosa.

Existiu um tempo em que o coração congelou por anos, não querendo surpresas ou promessas sem fundamento. Ele paralisou em um tempo qualquer e decidiu dar férias sentimentais aos olhos e a todos os poemas que foram escritos por ele. Claro que, sem mentiras banais, este tempo foi resultado de outros tempos menos ingênuos, mais sérios e complexos de entender. Um tempo que até é difícil de explicar ou mensurar, até porque este tempo não teve um início, mas vários. Todos com particularidades, com singularidades de uma vida completa. Todos completamente diferentes entre si, mas tão iguais em seus tantos porquês.

Não é uma coisa fácil de explicar, mas o coração – como todas as partes do corpo – tem suas razões que são plausíveis. O problema de tudo são as imagens que se recordam, os cheiros que interrompem, as coincidências que atropelam, os jeitos e trejeitos de uma menina loira, morena ou ruiva…

O coração jamais se esquece. E pulsa.

Pulsa para tentar compreender, tentar entender que é parte pensante desses passos largos. Pulsa para tentar mostrar ao resto que precisa ser entendido. É, ele sofre com um simples distúrbio de pequenas causas que abarrotam uma imensidade de outras coisas. Mas o principal é que ele é incompreendido. Tantos outros por aí extrapolam em suas mensagens, sem entender as razões mundanas e inexplicáveis. Outros sonham com o dia em que se tomará um juízo certo para horas erradas. Existem até aqueles que, de tão tolos, dizem já compreender todas as razões de seus corações e não entendem os outros que se perdem por motivos tão fúteis…

Mas não quero me perder ou enrolar…

O grande problema é que volta e meia – ou mais volta do que meia – algo ressurge por incalculáveis razões. São fatores desconexos entre si, mas que se comportam de maneira peculiar e adversa. É uma palavra solta no jornal, um perfume sentido em um corredor ou uma foto que, pelo tempo, deveria estar amarelada, mas surge viva em cores e movimento, mesmo que este movimento seja apenas uma alucinação criada para tentar estar naquela foto e sentir as reações.

Este é o problema… Tudo se perde como uma alucinação.

O grande fato disso tudo é que nada aconteceu, e são apenas cenários imaginários ganhando vida neste estandarte. Não, eu não sou louco, e acredito que nem meu coração é. Ele apenas quer ser feliz e cria, com pouca ajuda, esses sentimentos aflorados de maneira singular e com atitudes inimagináveis. Se ele pudesse falar, diria que apenas brinca dessa forma para tentar reviver a felicidade outrora vivida. Ele se justificaria de tudo isso dizendo que iria melhorar seus atos para manter o mundo em um perfeito estado de espírito e de harmonia suprema.

Ah! Esses desejos tão simples! Desejos que de fácil têm apenas o fato de escrever e descrever as possíveis ações e estradas construídas por isso. Do resto, o impossível ganha o jogo de lavada!

Existiu um tempo em que tudo isso seria simples e teria um final feliz. Uma prosa com um momento de escasso entendimento, mas que, no todo, seria completamente compreendida. Os corações se encontrariam e marcariam a data certa para pulsar em um mesmo ritmo. Os corações iriam rir da mesma forma, ter a mesma energia e construir a felicidade com uma fortaleza rígida e impermeável a problemas externos. Esse tempo tem inúmeros exemplos, nomes e projetos concluídos com êxito em vida e em morte. Você mesmo conhece em casa, no seu bairro, na sua cidade e na sua vida.

Mas e o seu? Aquele que, mesmo tentando e compreendendo, não possui um fim próximo? Você, que lê linhas perfeitas e se encontra nas palavras tortas de uma frase qualquer ou de um aglomerado de imagens que parecem possuir o seu nome?

Somos infinitos, talvez maiores do que o outro infinito, mesmo que a matemática diga que não é possível mensurá-lo. Mas fazemos parte dele. O grande problema é achar o tempo certo, o pulsar certo e também que o outro lado esteja na mesma busca e sintonia. Entenda o impossível e entenda o quanto isso não é plausível. Foi exatamente por isso que eu congelei no tempo e, daí, o que me restou foi contar a minha epopeia.

Existiu um tempo em que as mensagens eram ensaiadas, os sorrisos brilhantes e a aurora foi a mais correta possível. Mas ainda faltava muita coisa. Cansei de falar sobre corações e conexões surreais. Falo de atitudes terrenas, de profecias humanas e de ações feitas ali, no calor do momento e fora da razão de esperar a estrela chegar. Esses momentos criados são como aquele ator principal de um filme ruim e sem enredo, que se perde no propósito de viver ali. Desse tempo houve a intensidade bacana – vivida no “hoje” e no “passado” –, mas que foi interrompida sem explicação. Este é o maior problema e o maior vilão: o “parar de repente”, o “sumir amanhã” e até o tão famoso “o que aconteceu?”. São perguntas, são cenas que se repetem milhões de vezes, são lembranças que tentam entender o que aconteceu, o que foi feito, onde a razão estragou toda uma receita e uma história verdadeira.

Desse resultado, as respostas são conhecidas e, mesmo que não existam, nada mais importa e o inverno chega, qual for o mês do ano. Ou seja, não está errado, mas é apenas um tempo para pensar e tentar esfriar uma quente discussão interna que destruiu algumas mobílias…

Existiu um tempo em que eu reconstruí contatos, poetizei para um passado infantil e inocente. Em que levei a sério uma foto sem destaque aparente, mas que frisei como importante. Em que uma caminhada noturna fez o mundo girar de uma maneira correta, em que lembranças me guiaram a escrever rios de alegria que há tempos não visitava e que nem lembrava de existir – e que fez o coração se planejar.

Existiu um tempo em que talvez a intensidade tenha sido medida incorretamente, em que os corações marcaram um encontro em outro país e um dos lados se perdeu. Não sei dizer qual foi, mas até hoje busco compreender. Busco ajudar e tentar unir a peça que faltava, mas, no alarme matinal, o projeto foi concluído, mesmo solitário e incompreendido. Foi ali que ele sentiu, pela primeira vez, a primavera ventar seus perfumes e que, mesmo sem uma viagem de balão ou uma paisagem desenhada, o coração pôde perceber que a felicidade é tão eterna quanto os seus passos, quanto o seu pulsar.

Existe um tempo que a memória sempre vai guardar, em que todo perfume vai se associar, em que toda figura terá seu par e em que cada poema será único, mesmo sem uma pessoa para idolatrar. Mesmo com tudo isso – que de fora parece tão impessoal –, será o maior tesouro possível que meus dedos podem doar. Este tempo de agora faz isso, e o coração concluiu, mais uma vez, que chegou ao seu épico final, ao seu ápice momento de deleite, em que dali o impossível é apenas uma tarefa a terminar e em que a aquarela de cores abre a possibilidade de ter o tom certo, a combinação certa e aquele ritmo correto para que o grupo de infinitos mude e traga novas experiências.

Existe este tempo em que o livro se fecha, pois concluiu todo o seu sentimento e agora espera alguém para a sua real tradução…