Abro este caderno de recordações em um profundo céu azul sem nuvens. Em alto-relevo estão todas as passagens e marcas deste carrossel cigano que foram meus meses descritos…

Trago o cheiro do tabaco nas roupas, a pele macia e o orvalho final da madrugada enquanto guiava para um sono que seria povoado por você.

Em algumas páginas estão os desenhos incompletos que eu criava ao te ver dormindo. Sua suavidade de sono sempre foi um traço distante dos meus dedos para conseguir a correta entonação que pintasse fielmente o tom.

Invado com sons de tudo que nos fez viver. De calúnias e confissões, até planos e distrações embebidas em um desejo que cresceu por meses em nossas veias. Lembro de músicas que não se conectaram, de uma risada abafada em uma noite quente ou até do suspiro de inverno que gripou as engrenagens da nossa relação…

Mas eu não consigo lembrar do som de quando você me beijou. Não consigo lembrar do som de quando você me encontrou. Não consigo lembrar do jeito que você me olhava.

Mas eu me lembro perfeitamente de quando você me deixou…