Tudo começou igual àquela manhã. O café amargo, os exercícios de sempre, o fluxo de pessoas aumentando e diminuindo no metrô, e o sol judiando dos passos sem pedir licença…
A rotina quase terminou como sempre, mas ali estava o peso leve do envelope no capacho da porta. Não era comum. Não estava na caixa de correio, mas largado ali, na entrada. Parecia especial — algo que não pertencia àquele instante.
O papel era amarelado, as bordas mordidas pelo tempo. O endereço estava escrito à mão, com uma letra que não reconheci. No canto, o carimbo: 12 de setembro de 2027. Mas era novembro de 2025.
Fechei a porta, fiquei um instante olhando para o envelope. Havia algo na textura do papel — um cheiro de gaveta antiga, como se tivesse atravessado anos dentro de um móvel que eu não lembrava ter. Tirei a mochila pesada do dia das costas, ajeitei a cadeira da cozinha e abri o envelope. O papel tinha marcas de dobras antigas, quase rasgando em determinados pontos. A grafia era conhecida e, logo na primeira linha, dizia:
“Se você está lendo isso agora, algo deu errado.”
Continuei. Era uma carta longa, cheia de frases que pareciam já me conhecer amanhã. Detalhes que me olhavam de outros momentos. Falava, com ferro e brasa, sobre um encontro na estação de metrô às 17h, dali a duas semanas. Dizia que seria um encontro inesperado, com alguém que eu ansiava conhecer — alguém pronto para me mostrar o final da história que buscava orquestrar. Mencionava exatamente um livro que seria o início dessa jornada. Um livro que eu nunca havia ouvido falar, mas que descrevia todos os meus resultados.
No parágrafo seguinte, alertava para que eu não falasse com ninguém sobre aquilo — inclusive com uma certa pessoa. Porque, só de balbuciar as possibilidades, tudo mudaria e eu não voltaria para casa do mesmo jeito.
No fim, havia uma assinatura. A minha. E a minha letra. Em cada detalhe. Era a minha letra.
Nos dias seguintes, cada passo virou suspeita. No metrô, olhava desconfiado para todos os passageiros, sentindo que poderia estar sendo seguido e vigiado. No mercado, uma moça com o cabelo preso, exatamente como descrito num trecho da carta, me olhou rápido demais e desviou os olhos, como se escondesse uma pista do que eu ansiava. No bar de sempre, enquanto tentava não pensar nos pormenores, alguém deixou cair um livro cujo título estava nas páginas que eu lera na véspera. Rapidamente, a dona do livro se esgueirou para fora e, quando tentei alcançá-la, já havia sumido na virada da rua.
Comecei a enlouquecer e a me preocupar cada vez mais. Toda noite, relia a carta, buscando pistas e razões para tudo aquilo estar acontecendo. Percebi, cedo demais, que a tentativa de evitar e esquecer o assunto estava fabricando justamente as coincidências descritas. E tudo caminhava para o encontro, agora a poucos dias de acontecer.
No dia em questão, passei as horas com a sensação de que o ar tinha espessura. O trabalho se arrastava. Tudo parecia mais lento, mais denso, mais tenso, mais angustiante. Às 16h50, saí correndo do trabalho e esperei na estação mencionada. Era pequena, daquelas em que poucas pessoas entram e saem, mas naquele dia, e naquela hora específica, estava mais silenciosa do que deveria. Não havia ninguém. Não aconteceu nada.
17h15… 17h30… 18h… 18h30… e nada.
Quando voltei para casa, próximo das 19h, havia outra carta sob a porta. Mesmo envelope, mesma letra. Apenas o carimbo de hoje como diferença. Abri: estava dobrada para que eu visse primeiro a assinatura. Mesma letra. Mesma assinatura.
“Eu tentei mudar e seguir adiante, mas você precisava escolher. Escolher e ver por si só.”
Fiquei parado com o envelope aberto nas mãos, o cheiro de papel antigo se misturando ao café que já esfriava na cozinha — deixado às pressas naquela manhã, na ânsia de que tudo se explicasse.
Não sei se perdi alguma coisa ou se apenas evitei o acontecimento. Não sei se a carta veio do futuro ou de um lugar onde ainda não estive. Havia mais dúvidas que alívio. Mais peso nos ombros que sensação de explicação.
A única certeza é que, naquela noite, sonhei com uma gaveta trancada. Dentro dela, depois de arrombá-la com unhas e pedaços de ferro presos na parede, havia mais cartas. Dezenas delas. Todas com meu nome. Todas com datas mescladas entre passado, presente e futuro. Todas com a mesma assinatura. Todas com a mesma letra. A minha letra.
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