O crochê era sua atividade predileta, estava em sua vida havia quatro gerações – daquelas coisas que passam da bisavó para a avó, para a mãe, até chegar nela…
Ela era sozinha, já tinha dois filhos “bem moços”, como costumava dizer, que a visitavam sempre, mas morava só desde que seu marido faleceu. Encontrou no crochê a companhia para não se entristecer com o mundo cruel que seus olhos enxergavam da sacada antiga. Não entendia a pressa das gerações, das coisas que deixavam pelo chão em troca de migalhas, sem elogio aparente ou verdadeiro por tal esforço. O seu crochê era justo e fazia diversos casaquinhos que levava à maternidade da cidade como doação. Certa vez viu um bebê usando um dos casacos doados e isso a encheu de uma alegria tão pura que nunca mais parou de fazer tal caridade.
Passava longas tardes, chuvas esparsas, calores repentinos e assistia ao frio fora de época, enquanto suas mãos cruzavam a lã e sua agulha terminava mais uma linha. Criou o hábito de ser observadora, e outro passatempo que cultivava era tentar adivinhar as dezenas de vidas ao seu redor.
Inventava nomes baseados em sua vontade, criava enredos apimentados demais para serem reais, apenas para se divertir, e acompanhava as conquistas também. Um carro novo para o vizinho do outro lado da rua, um novo admirador secreto para a moça da loja, a moça do prédio vizinho que estava grávida, que havia acabado de se casar…
E com isso ela também acompanhava o menino entristecido da janela à esquerda. Seus olhos seguiam seus passos na rua quando saltava do ônibus, os dedos trançavam a lã e, quando ele entrava em sua casa, tudo se apagava. O sol jamais batia naquelas paredes e parecia que o rapaz vivia sempre com seus medos e monstros enjaulados dentro daquelas paredes brancas…
A solidão que ele parecia criar era a mesma da moça simpática dos andares abaixo, à sua direita. Via, dia após dia, o som alegre da música inundando o espaço, o cheiro sempre interessante e temperado do jantar, o capricho com que se arrumava e montava a mesa, sempre para duas pessoas, mas jantava sozinha. Certa vez ela ficou em dúvida se existia realmente alguém que chegava mais tarde ou não. Mas suas dúvidas se dissiparam quando captou, sem querer, um grito sufocado de que queria encontrar alguém e que já não aguentava mais a solidão.
Entre um crochê e outro, com o início da noite naquele fim de inverno interminável, presenciou o que jamais pensaria em suas histórias fantasiadas: o rapaz gritou “Oi! Seus jantares são lindos vistos daqui…”, enquanto terminava seu jantar, ao mesmo tempo em que ela deixou o prato cair, sorrindo pela surpresa que presenciava. A senhora não conseguia enxergar perfeitamente, mas podia jurar que os dois jovens tinham os olhos carregados de lágrimas, ainda sustentadas, porque era cedo demais para acreditar que era real…
Por alguns minutos houve o silêncio forte da surpresa, mas depois a jovem riu e disse: “Ah… obrigada! Se quiser vir experimentar amanhã…”. E ele respondeu que sim: “Eu te levo dois novos pratos!”, para quebrar o gelo do momento.
E assim, o mundo se inundou de luz, expulsando aquele frio interminável, a escuridão da solidão e a pesada atmosfera da superficialidade fraca dos nossos dias. Tudo ganhava uma luz diferente, porque o rapaz parecia expulsar seus demônios, a moça teria a companhia sonhada para o próximo jantar e a senhora que testemunhou aquele momento, depois de anos de mentiras criadas em sua cabeça, havia presenciado a pura paixão se iniciando da sua sacada rotineira.
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