Não é apenas a minha opinião: se você buscar mais informações, verá que o Caminho é 70% mental e 30% físico…

Isso diz muito sobre a sua motivação, sobre o seu propósito, e o quanto o seu objetivo está firme em sua mente para continuar caminhando e concluindo suas etapas rumo à Santiago de Compostela. Obviamente, comigo não foi diferente: minha motivação e meu propósito estavam praticamente enraizados em mim.

No dia 10/01/2019, torci o joelho pela terceira vez em menos de dois anos. A dor foi absurdamente maior que nas anteriores, e eu sabia que, infelizmente, estava “oficializada a minha aposentadoria” do futebol. Depois de praticamente 30 anos de muitos jogos, lesões, algumas conquistas e muitos momentos importantes, eu teria que parar. Ali terminava o passatempo que me acompanhou por toda a minha vida.

Pra você ter ideia de como o futebol era importante pra mim, eu chegava a jogar quatro vezes por semana. No mínimo, três jogos fixos — quase como uma rotina sagrada. Não era apenas esporte: era minha terapia, onde eu me sentia mais vivo. Lembro de cada detalhe do último lance, e de como mal consegui chegar em casa. Eu sabia que sem cirurgia e um longo processo de reabilitação, não iria melhorar. E naquele momento, não tinha condições de fazer isso. Não eram só minhas férias que terminavam ali… era a minha jornada nos campos.

Em 2019, eu ainda morava em Lisboa, e meu voo de volta do Brasil foi dois dias depois da lesão. Eu mal conseguia andar, o joelho estava inchado, e eu não encontrava posição pra perna. Pra ajudar, a poltrona do avião deixava minha perna lesionada “pra dentro”, e eu não consegui esticá-la por horas. A dor aumentava, e a minha angústia também.

Foram quase 10 horas dentro do avião até que eu decidi encarar a tristeza de frente e olhar para “o outro lado”. Afinal, o futebol era uma parte gigante da minha vida, mas não era a mais importante. Nem meu salário dependia daquilo! Eu sou analista de sistemas — o futebol sempre foi só diversão com amigos. Ou seja: eu ainda tinha todo o resto pra viver e focar minhas energias. Tinha um trabalho estável, uma vida financeira tranquila. Tirando o joelho, eu estava saudável e com todas as demais partes da minha vida caminhando super bem.

Mudar esse foco fez não apenas a dor diminuir, mas também me permitiu enxergar tudo o que eu tinha de bom. Lembrei que eu havia me mudado pra Europa em 2017, recomeçando do zero. Revivi vitórias e descobertas, mas também as frustrações, traições e derrotas que quase me fizeram desistir — e que, no fim, me trouxeram até ali. Eu entendi que agradecer não é só pelas vitórias. É também pelas derrotas e tristezas que nos moldam.

Foi ali que eu encontrei meu combustível: AGRADECER.

Pode soar simples ou até bobo, mas agradecer é uma das ações mais poderosas que podemos praticar. Agradecer é celebrar as alegrias, mas também honrar as dificuldades que nos moldaram. É reconhecer que cada lágrima teve um papel no nosso crescimento. E ali, naquele avião, a gratidão se cravou na minha alma.

Agradecer não é automático. É uma disciplina. A gente tende a focar no “verão glorioso” das vitórias, esquecendo do longo inverno que enfrentamos para chegar lá. Eu sabia que tinha trabalho a fazer — uma mudança interna que exigiria foco. E para isso, eu tinha um bordão.

GLÓRIA A DEUS!” virou um meme no Brasil em 2018 por causa do Daciolo na sua campanha presidencial. Tirando o contexto bíblico e religioso, aquelas três palavras tinham uma força absurda. “Glória” a algo maior do que nós. Agradecer àquilo que nos guia, independente da crença. E foi assim que o “GLÓRIA A DEUS” se tornou parte do meu vocabulário. Acordava, trabalhava, tropeçava, levantava… sempre com um “Glória a Deus” na cabeça.

E aí vem a pergunta: Por que agradecer no Caminho de Compostela?

Eu conheci o Caminho quando tinha uns 12 ou 13 anos, lendo o livro do Paulo Coelho. Eu sabia que era ficção, mas sempre fiquei curioso sobre o que era real naquilo tudo. Com o tempo, o Caminho virou um plano adormecido. Pensei em fazer com 30 anos, mas quando cheguei lá, minha cabeça estava em outro lugar e assim, mais uma vez, os planos eram postergados.

Como falei no início desse capítulo: O Caminho é 70% mental.

Se você não estiver inteiro, não vive a experiência. Então eu precisava estar inteiro e completamente focado com o meu propósito. O tempo passou, filmes e documentários alimentaram a vontade, até que chegou janeiro de 2019… e toda aquela conjunção de situações, pensamentos e inspirações brotando na minha mente…

Seria lindo descer do avião e já marcar minhas férias pra fazer o Caminho, mesmo mal conseguindo andar. Mas eu sou um pouco consciente: tudo precisa de preparo. Ali, naquela dor, eu decidi que faria o Caminho aos 40. Seria meu jeito de agradecer, de dizer “Glória a Deus” por tudo o que vivi. Literalmente tudo.