Com a motivação traçada, o plano feito e todos os itens da lista definidos, chegava a hora de começar a pensar na realidade dos meus objetivos para caminhar todos aqueles dias. Pode parecer banal, mas a primeira pergunta que fazemos é a famosa: Por que você está fazendo o Caminho?
Essa foi a pergunta que mais respondi (e perguntei) durante a jornada. Quando cruzamos com as pessoas (peregrinos ou não), é normal que a curiosidade salte aos olhos e às palavras. Talvez façamos isso para tentar encontrar alguém com a mesma razão que a nossa, ou talvez seja pelo desejo de incluir esse “novo e interessante” objetivo na nossa bagagem emocional. Além do agradecimento por todas as coisas (boas e ruins) que me aconteceram – como expliquei no capítulo anterior – eu tinha como objetivo completar o Caminho. Sim, eu queria chegar “inteiro” ao final dessa caminhada. Pode até parecer um pouco ridículo pensar nisso, mas essa “dúvida” vinha da minha lesão no joelho – que dorme e acorda comigo desde 2019. E, se resolvesse se manifestar durante os dias do Caminho, eu teria sérios problemas para continuar.
Inclusive, os dois pontos que escrevi no meu “Diário do Caminho de Santiago”, ainda em Coimbra, no “Dia 0”, foram:
- Superar medos e receios.
- Aprender a como superar limites.
Era um medo real. Durante o período de preparação, tive um estalo no joelho que quase me fez desistir. Foi no início de fevereiro, três meses antes do Caminho, e eu fiquei praticamente quatro dias sem conseguir caminhar direito, sem sair de casa e com muita dor – tudo por causa de um simples “estalo”. Fiquei imaginando o que poderia acontecer em uma trilha: um passo em falso, uma torção de pé ou apenas uma queda. Esse medo me tirava o sono. Por isso, um dos meus principais objetivos era completar. Era chegar a Santiago de Compostela. Depois eu pensaria no que fazer, mas, além de agradecer, eu queria completar.
Sim, como falei dezenas de vezes anteriormente, o Caminho é muito mais mental do que físico. E uma das minhas maiores batalhas foi compreender e convencer a mim mesmo de que eu tinha condições de completar, que a parte física estava OK, e que eu já estava acostumado com caminhadas e sabia como evitar lesões e movimentos que pudessem me machucar.
A “batalha mental” é intensa, pois os medos e as imagens me tiravam o sono e me desafiavam a acreditar que eu seria capaz. Afinal, os joelhos e as pernas são os principais instrumentos nessa jornada. Sem eles, nada é possível.
Mais do que explicar e relembrar como eu me sentia, acredito que a parte do “Dia 0” do diário expressa bem as situações que aconteciam em 30/04/2024 na minha vida (e na minha mente):
“Choveu o dia todo em Coimbra e isso não ajudou em nada minha preparação mental. A chuva caiu sem piedade durante todo o dia, me impossibilitando de fazer muita coisa. Quando a chuva pareceu dar uma trégua, fui ao centro com a minha credencial para tentar carimbar na Sé e ter meu primeiro carimbo, mas não consegui encontrar ninguém disponível. No albergue, só carimbavam se eu ficasse uma noite ali – tentei explicar a minha ideia e porque começava o Caminho em Coimbra, mas foi em vão. A chuva voltou a cair pouco tempo depois e, como eu não tinha guarda-chuva, o jeito foi caminhar todo o trajeto com a jaqueta até a pousada. Resultado: a minha credencial encharcou e agora parece machucada – talvez como o próprio dono.
Vamos ver o que me espera. Tenho medo. Tenho aflição. Tenho vontade de chorar e desistir. Mas eu preciso começar e ao menos tentar…”
Foi com essa angústia, ansiedade e aflições que passei minhas últimas 24 horas antes de iniciar minha jornada. A parte mais importante desse texto é justamente o “ao menos tentar…”.
Depois de anos lendo, assistindo a filmes e vídeos sobre o Caminho e criando planos na minha mente, eu estava ali para iniciá-lo. A mochila pronta, a preparação feita, as roupas separadas e as etapas listadas para que eu soubesse onde começar e terminar os próximos dias. Depois de toda a teoria e dos planos feitos, era chegada a hora da ação. Era hora de sair e dar o primeiro passo. O primeiro passo da primeira etapa do meu primeiro Caminho. Era hora de tentar…
Toda grande história começa com um primeiro e simples passo. Era isso que eu estava programando fazer. E era isso que eu iria fazer. O primeiro de muitos. O primeiro – e muito importante.
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